Abrimos a televisão… e as notícias, durante horas a fio, falam-nos das cheias. Jornalistas arrostando com chuvas ventos e enxurradas, trazem até às nossas salas imagens de destruição e de pessoas relatando suas tragédias, revoltas e desânimos… enquanto os comentadores falam sem parar.
Só que…
Só que, malgrado a força inusitada das recentes tempestades, já tínhamos visto e ouvido referir situações semelhantes em passados Invernos. Já no Verão os relatos de tragédias, os lamentos dos afetados continuam… mas desta vez os males são provocados pelos incêndios. E os lamentos, as tragédias, causadas pelas águas ou pelo fogo repetem-se ano após ano. Assim como as visitas dos governantes (bem como as dos aspirantes a tais lugares) às zonas atingidas, para dar o seu ‘abraço solidário’ às populações.
Sim, todos precisamos de abraços, especialmente nos períodos mais tristes da nossa vida. Mas vejamos: não estaremos a assistir a manifestações populistas e passando ao lado da resolução dos problemas ambientais do país? Será que a função dos governantes é sobretudo a de ‘dar abraços’? Em meu modesto entender a sua função é a de encontrar soluções para os problemas, para o que – dado que o seu saber não pode ser enciclopédico – se devem rodear dos melhores especialistas em cada matéria, bem como dos diretamente afetados em cada questão (1).
Nos casos a que nos estamos a referir as zonas afetadas pelas cheias nem serão muito difíceis de discernir: a água obedece à lei da gravidade, corre pelos vales e gargantas e imunda os leitos de cheia – zonas discerníveis à vista pois são as zonas planas junto às margens dos rios. Com chuvas persistentes os barrancos e falésias podem derrocar, arrastando as construções junto a elas colocadas. Nas estradas as águas não canalizadas, minam a suas fundações e provocam abatimentos.
Quanto ao fogo, embora com caracter mais imprevisível, também se sabe que matas compostas por árvores que ardem facilmente, como pinheiros e eucaliptos, a iniciação de um incêndio, por maldade, descuido ou imprudência é fácil; e se essas matas se estenderem ao longo de quilómetros sem interrupções e em zonas montanhosas – o ar quente sobe para cima, ardendo as montanhas portanto de baixo para cima – a extensão da área ardida será também grande.
Mas sendo as zonas perigosas conhecidas em linhas gerais (a um nível local seria necessária uma análise mais fina), porque não se atua no sentido de resolver estas situações? A meu ver tal se deve a situações de compadrio, e a falta de coragem política: os nossos governantes, por governarem em ciclo curto (por um período muito limitado de anos), precisam de apreciações positivas a curto prazo; e assim, à política do ‘abraço solidário’ referido acima, soma-se a das ‘compensações’ (quando surgem). Essas compensações traduzem-se verbas para reconstruir os edifícios afetados – mas na posição que ocupavam, o que faz com que os problemas se repitam em anos futuros com os custos correspondentes, que são avultados. A hipótese de que tais edifícios, especialmente os afetados pelas inundações ou pelos fogos (2), estavam mal implantados no território – perto de linhas de água (permanentes ou temporárias), ou perdidos em áreas montanhosas de difíceis acessos (3) – não é colocada. Um pouco de decisão exige-se: não insistir no erro, deixar de atribuir estas tragédias a ‘acasos’ ou a ‘caprichos da Natureza’: reconstruir aos edifícios afetados sim, mas em zonas menos perigosas. Controlar o espalhamento das cidades, dar mais ‘liberdade’ aos rios eliminando as edificações e outros obstáculos que impedem o seu curso, usar os leitos de cheia unicamente para fins agrícolas (importante dado que Portugal importa cerca de 75% dos alimentos que consome) deixar os montes para os lobos e as encostas declivosas para a vegetação natural.
(1) Assim se procedeu aquando da epidemia da covid.
(2) No caso das destruições pelos ventos o caso será um pouco diferente exigindo reforços a nível da engenharia.
(3) A presença de habitações junto ás áreas cultivadas ou florestais justificada em épocas passadas, perdeu na atualidade grande parte da importância: os ladrões já não procuram roubar produtos agrícolas e os agricultores já dispõem de veículos motorizados, podendo assim morar em local desviado das suas courelas.