Um pacto pela floresta

A floresta portuguesa está num ponto de viragem. Ou persistimos num modelo florestal extrativista, inflamável e de baixo valor acrescentado — que empobrece os territórios, degrada os solos, esgota a água, ameaça a biodiversidade e agrava o risco de incêndios catastróficos — ou assumimos a liderança de uma reconversão florestal que se tornou um imperativo nacional.

O verão de 2025 reforçou a urgência. Já arderam quase 40.000 hectares, sobretudo no Norte e Centro. Bombeiros exaustos, meios aéreos insuficientes, calor extremo acima dos 40  graus Celsius, noites tropicais, vento imprevisível. Os incêndios deixaram de ter “época”. A floresta tornou-se frágil, vítima da combinação entre seca prolongada, abandono rural e paisagens monótonas, dominadas por eucaliptos, pinheiros, matos e exóticas infestantes. Insistir em monoculturas de rendimento rápido é condenar o país à repetição da tragédia, ano após ano.

Portugal precisa de uma nova economia florestal, mais diversa e inteligente. Uma economia que valorize produtos sustentáveis e inovadores, promova emprego de qualidade e fortaleça as comunidades locais. A floresta do futuro tem de proteger, produzir e pertencer — com mosaicos resilientes que integrem agricultura regenerativa, sistemas agroflorestais, florestas nativas de rendimento e produtos não lenhosos. Territórios vivos, multifuncionais, onde a biodiversidade seja um ativo, não um entrave.

Mas nenhuma transformação será possível sem inteligência territorial. Precisamos de mapear zonas críticas, com base no historial de incêndios, na biodiversidade e na disponibilidade hídrica, e canalizar os incentivos para esses territórios, com metas claras e acompanhamento técnico. A responsabilidade não pode recair apenas nos proprietários individuais; cabe ao Estado liderar, financiar e coordenar a transição, garantindo o bem comum.

A vigilância e a resposta rápida continuarão a ser necessárias, mas são apenas parte da solução. A resposta tem de ser sistémica, articulada, estratégica. A Agência para a Ação Climática poderá coordenar esta operação nacional, reunindo Ambiente e Energia (conservar e regenerar), Agricultura (integrar o uso do solo), Administração Interna (reforçar a proteção civil), Educação (formar cidadania ecológica) e Planeamento (alinhar o ordenamento com a justiça territorial).

Precisamos também de novos instrumentos: bancos públicos de terras para uso coletivo, créditos de biodiversidade, pagamentos por serviços de ecossistema e linhas de financiamento com garantias públicas para quem lidera a mudança. É tempo de apoiar quem transforma, em vez de subsidiar um modelo que arde, esgota e afasta as pessoas.

Esta transformação pode e deve ser enquadrada no novo contexto europeu. A Lei do Restauro da Natureza, aprovada em 2024, obriga cada Estado-membro a apresentar um Plano Nacional de Restauro até 2026. Portugal tem aqui uma oportunidade histórica para liderar uma reconversão florestal que una ambição ecológica e desenvolvimento territorial. É tempo de articular os objetivos de restauro com as políticas de ordenamento e uso do solo, transformando a crise em oportunidade.

E temos de ser claros sobre os custos do imobilismo. O que parece “rentável” hoje — plantações intensivas sem gestão — é, na verdade, um modelo insustentável, custeado por riscos coletivos: incêndios devastadores, erosão, perda de biodiversidade, stress hídrico e despovoamento. Esta fatura invisível tem de ser exposta, porque o que está em causa não é apenas o lucro de alguns, mas a segurança de todos.

Impõe-se um novo pacto para a floresta portuguesa — um compromisso nacional até 2050, com metas mensuráveis: mais diversidade de uso do solo, mais valor acrescentado, menos área ardida, menos ignições, mais soberania ecológica e territorial. Um pacto construído com os atores do território: agricultores, proprietários, investigadores, autarquias, cidadãos.

Transformar a floresta não é apenas uma tarefa técnica: é um desígnio político, ético e civilizacional. Exige visão, coragem e alianças improváveis entre ciência e sabedoria local, entre inovação e tradição, entre política pública e ação cidadã. Esta é a década da regeneração, e a floresta pode ser o lugar onde voltamos a imaginar um país mais fértil e resiliente. Porque só mudaremos o modelo atual se formos capazes de criar uma alternativa melhor e desejável.


A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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