
Este ano, porque ardeu em áreas onde há menos eucalipto (eu sei que irrita muito os anti-eucaliptistas eu passar o tempo a lembrar que o eucalipto está em 10% do país, ou seja, sobram 90% onde podem ocorrer coisas dificeis de relacionar com o eucalipto), a discussão sobre os eucaliptos arrefeceu, mas voltará em força nos próximos fogos que ocorram em áreas com forte presença de eucalipto.
Este ano tem ardido muito pinhal, que recupera muito mal destes fogos, o que significa que a contínua diminuição da área de pinhal a que assistimos (já terá ocupado perto de um milhão e meio de hectares, mas hoje está a menos de metade e vai diminuir com os fogos deste ano, substituído pela mistura de mato e sucata florestal que alimenta os grandes fogos) e por isso é útil fazermo-nos esta pergunta: e se o sector da pasta de papel falir, como faliu a resinagem e o aproveitamento da madeira de pinho?
Claro que o falir, aqui, está a ser usado de um forma relativamente abusiva, mas comecemos na resina e acabemos na pasta de papel, para chamar a atenção sobre o que acontece à gestão da paisagem se o sector da pasta de papel seguir os passos do sector da resina, como parece estar a acontecer.
Portugal foi um dos, ou o, não sei bem, maiores produtores mundiais de resina.
Com base nisso, criou uma indústria de química pesada com forte peso mundial em alguns produtos específicos.
Essa base económica criou riqueza, criou emprego e gerou gestão de paisagem (para além de ranchos folclóricos, como não se cansa de dizer Helena Matos, que é de Mação).
Nessa altura os resineiros não tinham de se preocupar muito com a gestão do sub-bosque para poder aceder às bicas porque a agricultura e pastorícia se encarregavam de limpar os pinhais a resinar, só tinham de lutar contra o preconceito de que a resinagem diminuía a qualidade da madeira de pinho, para obter mais área de pinhal para resinar (e aturar a kafkiana regulamentação do sector, mas isso é o habitual em Portugal).
Mas, o futuro tem sempre estes “mas”, um dia o mercado mundial de resinas fez os preços da resina nacional deixarem de ser competitivos, a indústria instalada ou se reconverteu, ou faliu ou passou a comprar resina no mercado mundial, deixando de comprar resina nacional.
Com a agricultura e pastorícia em colapso, deixou de haver gestão dos pinhais, com o preço da resina e da madeira a ser menos interessante para os produtores, passou a haver mais risco de incêndio, com o aumento de risco de incêndio, o pinhal, uma criação relativamente moderna nas nossas paisagens, começou a reduzir-se, “caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre, e sempre, ininterruptamente, na razão directa do quadrado dos tempos”.
Hoje gastamos rios de dinheiro a tentar resolver os problemas de gestão da paisagem que resultaram do simples facto do mercado internacional de resina se ter alterado, com impactos sobre a gestão da paisagem que insistimos em ignorar, substituindo a discussão racional por mitos sobre interesses económicos ocultos e ilegítimos relacionados com qualquer inimigo escolhido em cada momento, suspeitando eu que no próximo ano culparemos os judeus, visto que os outros inimigos clássicos já estão um bocado vistos.
Ora um processo semelhante parece estar a ocorrer no sector da pasta de papel, com alterações muito relevantes no peso dos mesmos dois países que influenciaram o mercado internacional da resina, a China e o Brasil.
Os donos das celuloses parecem ter perfeita consciência do processo e com eles não precisamos de nos preocupar muito, ou se adaptam, ou vão à falência, são as leis da vida económica.
Quer a diversificação de investimentos da holding da família Queiroz Pereira, quer a diversificação de produtos criados a partir da pasta em que Navigator e Altri, por caminhos diferentes, estão hoje empenhados, reflectem o que aconteceu com a indústria de química pesada criada a partir da resina e a consciência do espectro que ronda o sector (sempre que posso, gosto de usar o poderoso arranque do manifesto comunista no que escrevo).
Não sei se a indústria se adaptará como aconteceu com a química pesada, passando a importar matéria prima, se deslocando as suas fábricas para perto da produção de eucalipto, simplesmente mudando de sector, ou de outra forma qualquer que a desligue da produção nacional de eucalipto, o que me interessa é responder à pergunta: e se a produção florestal de eucalipto deixar de ter mercado, isto é, falir, dentro de dez ou vinte anos (eu sei que dez ou vinte anos, do ponto de vista da economia e da sociedade, é um muito longo prazo e, pelo menos eu, provavelmente estarei morto, mas como exercício sobre gestão de paisagem, a pergunta interessa-me).
O mais provável será assistirmos ao processo que está a ocorrer no pinhal, progressivo abandono de gestão (já hoje, uns três quartos da área de eucalipto que temos não é gerida ou é sub-gerida), aumento do risco de fogo em paralelo com a diminuição do preço, realimentação do processo de abandono por inviabilidade ou elevado risco de investimento.
Há uma diferença substancial na ecologia das espécies, o eucalipto está muito bem adaptado ao fogo, como a generalidade das nossas folhosas autóctones, portanto, a par com o pontual alargamento da área de matos, teremos provavelmente muito mais sucata florestal como resultado do processo, e muito menos recursos para gerir a paisagem (a paisagem é gerida pelos recursos criados pela gestão, se eles não existem, o principal motor da evolução da paisagem passa a ser o abandono, o que significa que a nossa capacidade de escolha sobre o que queremos obter se reduz enormemente).
Ao contrário do que pretendem os líricos que acham que os carvalhos não ardem (deviam ir explicar isso ao fogo do Sabugal, provavelmente ninguém informou o fogo de que estava proibido de se alimentar de carvalhos e carvalhais), o resultado do reforço do abandono que virá da falência da produção de eucalipto não é um florescimento de carvalhais que o fogo não consome, o resultado é um ciclo infernal de fogo, com menos fogos, mais extensos e mais intensos, paralelo com a expansão dos carvalhais (com ciclos de fogo acima dos cinco ou seis anos, o carvalhal vai-se impondo, fortemente influenciado pela fisiografia) e espécies invasoras.
É uma chatice, mas a paisagem não existe para que a contemplemos, existe como síntese da forma como nos relacionamos com os elementos naturais (Teresa Andresen) e se não nos relacionamos através da economia e da criação de riqueza, o que nos permite ter recursos e possibilidade de escolhas, então é a lógica interna dos sistemas naturais que se impõe o que, para surpresa de muitos, não é necessáriamente o que nos convém mais, a nós, animais gregários de clareira.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.