As turbinas eólicas nas colinas que circundam a Barragem do Alto Rabagão, em Montalegre, são sinal de que o vento ali não é brincadeira nenhuma. “As pessoas nunca acreditam, mas o efeito do vento aqui, no planalto, pode provocar ondas de 1,5 metros”, contou Pedro Oliveira, director de novas tecnologias e projectos especiais na EDP. Ele fez as honras na visita feita de barco até à outra ponta da barragem, onde estão os painéis solares flutuantes que hoje são um verdadeiro laboratório ao ar livre para testar novas soluções para tecnologias renováveis.
A água está muito azul e brilhante, com a copa de algumas árvores a espreitar junto à margem, como prova de que a albufeira da Barragem do Alto Rabagão, em Trás-os-Montes, está quase na cota máxima – mais uns 20 a 30 centímetros, e chegar-se-ia aos 880 metros do armazenamento pleno. O dia da visita foi escolhido a dedo: tinha de estar sol, e o vento não soprava tão agreste como de costume. Ainda assim, o frio era cortante na deslocação de barco até aos cerca de 2600 metros quadrados (m2) de painéis solares flutuantes instalados na barragem, feita contra o vento.
Os primeiros painéis solares flutuantes que a EDP instalou foram postos ali, em 2016, para testar o conceito de hibridização de energias renováveis – ou seja, a combinação de duas ou mais fontes renováveis, neste caso hídrica e solar, num único ponto de conexão à rede –, no qual a eléctrica portuguesa foi pioneira no país. Porquê no Alto Rabagão? “Porque se funcionasse aqui, onde as condições meteorológicas são tão severas, funcionaria em qualquer lado”, explicou Pedro Oliveira.
Neve na barragem
É assim tão extremo? “Ainda neste Inverno, os painéis solares flutuantes estiveram cobertos de neve”, exemplificou o responsável.
O teste-piloto funcionou muito bem, o conceito foi provado, e em 2022 a EDP instalou uma superfície muito maior de painéis solares flutuantes na Barragem de Alqueva, que tem quatro hectares – ou 40 mil m2. No Alto Rabagão são produzidos 220 kW (quilowatts), enquanto no Alqueva se produzem 5 MW (megawatts). “Portanto, 20 vezes mais”, sublinhou Pedro Oliveira.
Ainda como comparação, em 2025 a Agência Portuguesa do Ambiente emitiu parecer desfavorável ao projecto da central solar flutuante da albufeira do Cabril, nos concelhos de Pedrógão Grande, Pampilhosa da Serra e Sertã, que contava com uma grande oposição de autarcas e da população local, mas que abrangeria 33 hectares (330 mil m2).
Mas, agora, a ideia é fazer da instalação-piloto um laboratório flutuante. “O projecto Floating PV Lab surge da necessidade que identificámos de acelerar o desenvolvimento de soluções flutuantes”, explica o responsável da EDP. “Como tivemos impacto no sector, somos muito abordados para testar novas soluções tecnológicas. Havia a necessidade de ter um espaço onde as empresas pudessem vir demonstrar as novas soluções tecnológicas que estão a desenvolver em ambiente real”, conclui.
Duas empresas estão já a fazer ensaios em condições reais no Alto Rabagão. Uma delas é a norueguesa Fred. Olsen 1848, que está a testar o seu sistema de bóias de tensão automática para sistemas fotovoltaicos flutuantes, para validar como funciona com variações de nível de água. E em condições meteorológicas que podem ser bastante extremas.
“O Alto Rabagão é uma das zonas mais exigentes que temos. Tanto do ponto de vista da amplitude térmica, com temperaturas muito altas no Verão e negativas no Inverno, que põem muito stress nos materiais, como por causa do vento, que provoca uma ondulação significativa, que representa um stress mecânico na plataforma e nas junções dos flutuadores”, explica Pedro Oliveira.
Acelerar a tecnologia
O que ganha a companhia eléctrica com isto? “O principal benefício para a EDP é acelerar o desenvolvimento da tecnologia, porque acreditamos no solar flutuante, do ponto de vista internacional: não é apenas uma solução para Portugal ou para Espanha, mas para os vários mercados em que estamos, onde há um potencial interessante”, salienta Pedro Oliveira.
“Estando próximos do desenvolvimento da tecnologia, ganhamos uma vantagem competitiva porque temos acesso a tudo o que está a aparecer como novidade e ser testado, ainda sem saber se funciona ou não”, exemplifica.
Neste momento, a solução solar flutuante é ainda “marginal” na produção de energia da EDP. “Temos apenas três projectos-piloto, dois em Portugal, e um em Singapura, com uma potência total instalada de cerca de dez megawatts”, adianta Pedro Oliveira. Para se ter uma ideia de quanto isto representa, menciona a capacidade total da EDP: “Não sei de cor o número exacto, está sempre a variar, mas a produção é na ordem dos 23 gigawatts [um gigawatt é igual a mil megawatts]”.
A viabilidade económica destes projectos ainda é um desafio. “O que queremos é promover o desenvolvimento da tecnologia, para reduzir custos e tornar estes projectos mais competitivos, para que no futuro tenham um peso maior no nosso portfólio”, conclui Pedro Oliveira.
Os flutuadores, e as amarrações, a parte da estrutura que impede que os painéis andem à deriva pela barragem, estruturas que ali no Alto Rabagão se baseiam numa espécie de cordas elásticas e âncoras para manter o solar flutuante em posição, representam cerca de dois terços dos custos. O projecto que a norueguesa Fred. Olsen está a testar na barragem de Trás-os-Montes, por exemplo, inova porque usa soluções de engenharia diferentes: em vez de elásticos, usa um sistema de correntes com pesos, “que pode vir a reduzir custos”.