Tempos houve que, perante uma tragédia, perante um cataclismo, um funesto mau ano agrícola, ou infausta epidemia, a comunidade enchia as igrejas, recorria aos santos que nos andores saíam em procissão, suplicando-lhes o povo a intercessão ao Criador por uma redentora intervenção – eram uns totós. Chegados à laica modernidade, esvaziadas as igrejas e secularizado o espaço público, o fenómeno permanece com outras roupagens – só pode ser o sentido de humor de Deus: o sentimentalismo e a indignação são as novas formas de prece, sonoras suplicas laicas, vociferadas nos ecrãs das TVs e dos telemóveis. Os nossos “pensamentos” estão com as vítimas, dizem. Deve adiantar muito, deve…
Enfim, como já não se implora por milagres a Deus, exigem-se milagres aos impotentes políticos, que na verdade se puseram a jeito. O resultado disso, perante uma qualquer desgraça, mesmo sazonal, é uma ruidosa cacofonia desregrada, que não vale uma missa. O fragor irá entreter o burguês no seu sofá por uns tempos até que o assunto desapareça da agenda, escapulido como o vento escapa entre os dedos das mãos. De resto, a pandemia, os incêndios, as alterações climáticas, como é bom de ver e corrente acreditar-se, é responsabilidade nossa, do capitalismo ou da religião, e por consequência dos governantes ou do patriarcado. Mas se por um lado já se armam as piras para queimar as bruxas, seja nas comissões de inquérito ou nos debates de televisão – o ritual da expiação da culpa, nossa tão grande culpa (e dos incendiários), assim o exige; no horizonte adivinham-se as vozes dos novos profetas que prometem soluções para vergar a natureza, soluções que afinal sempre estiveram nas nossas mãos. Na forma de legislação, como é que ninguém tinha visto ainda? O melhor caminho para se retomar “a vida como habitualmente” como já nos prometia o saudoso (?) António.
A propósito de saudade, sonhos, sentimentos e assim: para todo esta interminável e incómoda tragédia que é a nossa passagem pela vida terrena, já o John Lennon preconizava uma solução eficaz: imaginem uma existência sem céu, sem inferno, sem países, sem religião, enfim, toda a gente a viver em paz. Um mundo sem pessoas, portanto. É o que nos irão propor um dia destes, os sentimentalistas e os populistas que conhecem as soluções fáceis e simples, que ninguém ainda tinha pensado.
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O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.