A Evolução da costa do Algarve na antiguidade: De Lagos a Quarteira – Parte I | Por José Manuel do Carmo

Share this…

Embora no último máximo glaciar (há 18 000 anos), o nível médio do mar se situasse cerca de 120 metros abaixo do nível atual, desde há 3000, ou mesmo 5000 anos, nível do mar é essencialmente o atual. Foi nesta fase que se verificou a formação de amplos estuários e profundas rias, numa linha de costa cujas reentrâncias seriam mais acentuadas e os cabos e promontórios mais salientes. No entanto, ao longo do tempo, variações no nível do mar, acumulações de areia e dunas fizeram e desfizeram ilhas-barreira, variações na corrente dos rios contribuíram para assoreamentos a jusante com a formação de extensos sapais e bancos de areia na foz, mas também, eventos sísmicos e maremotos ocorreram, nomeadamente, no séc. VII ac., no séc. VI ac., na segunda metade do séc. IV ac. (talvez em 382 ac.), no sec. III (entre 218 e 209 ac.), no século I dc. e em 1755.

A Lacóbriga do tempo romano, corresponderia a uma povoação celta do séc. V ac., localizada no Monte Molião.  Com um amplo domínio visual sobre o estuário e controlo da navegação na Ribeira de Bensafrim. Também, numa área hoje ocupada pelo sapal e pelos meandros da Ribeira de Bensafrim, existiu um povoado pré-romano, hoje submerso a 2,50m de profundidade. O assoreamento foi gradualmente inviabilizando o acesso ao porto de Molião, levando ao desenvolvimento de um povoado com fácil acesso e junto dos locais em que se situavam a atividade piscatória e as estruturas de processamento do pescado, a que se veio a chamar Lagos.

A área de Lacóbriga e do estuário da Ribeira de Bensafrim no período romano. Monte Molião e instalações de processamento de peixe e necrópoles junto à barra; vestígios de assentamentos romanos. Acedido em:
https://www.academia.edu/80768659/Navega%C3%A7%C3%A3o_e_Portos_no_Algarve_Romano
 
Vista da Baía de Lagos em meados do séc. XVII. A-Ferragudo; B- Vila Nova de Portimão; C-Alvor; D-Lagos. Atlas Pedro Teixeira Albernaz, 1634, fol.78 Acedido em: https://toponhisp.org/pt/toponimia-da-galiza-e-portugal/toponimo/portimao
 

Cilpes (Silves) deve corresponder ao Cerro da Rocha Branca, uma pequena elevação formando uma península sobre o rio Arade, a cerca de I-2 km, para poente, de Silves, onde terá existido um povoado fortificado da idade do bronze, que por volta do século VII/VI ac. entraram em contacto com comerciantes fenícios, e se prolongou até à época romana. Todavia no período muçulmano a Madînat Shilb corresponde à atual Cidade de Silves. O arade seria navegável até Silves, pois aquando da conquista pelo exército português, foram incendiadas as galés e naus inimigas que estavam atracadas junto às muralhas da cidade. Ainda na década de 1950, barcos de 20 toneladas subiam o rio até 15 quilómetros acima da foz.

JOSÉ MANUEL DO CARMO
Professor coordenador (aposentado).
Escola Superior de Educação e Comunicação, Universidade do Algarve

Embora alguns considerem que Portus Hanibalis, nome de origem cartaginesa, tenha sido alterado para Portus Magnus no período romano, a sua localização levanta dúvidas. Para alguns, Portus Magnus corresponderia a Mexilhoeira da Carregação, lugar de embarque para a travessia para a margem direita, função que manteve até finais do séc. XVIII. Para outros, Portus Magnus seria a atual Ferragudo, com ocupação anterior à Idade do Ferro, seria uma aldeia fortificada no período islâmico, que se chamaria qaria de Burtimûn (a aldeia de Burtimûn), posteriormente Portimun, onde mais tarde se edificaria o forte de São João do Arade.Poderia ser, portanto, a “aldeia do estuário a que chamavam Portimão”. Assim, outras opiniões apontam para que Portus Magnus designaria o amplo estuário na foz do Arade que ainda se designava no século XIX Rio Portimão (sem preposição), distinto do Arade. Na época o rio teria aqui uma largura cerca de três vezes superior à atual. O étimo moçárabe terá sido Portiman, que seria aevolução de Portus Magnus.

Para outros, Portus Hannibalis terá sido fundado em 436 a. C, pelo general cartaginês Aníbal (Hannibalis) Barca, na atual Alvor, no local chamado de Vila Velha, onde existiu um castro celtibérico da Idade do Ferro, que poderia ser a importante cidade de Ipses. Tomada pelos mouros em 716, a aldeia passou a chamar-se Albur (campo inculto).

Durante o domínio islâmico Silves, possuía um imponente sistema defensivo, em contraponto, era muito escasso o dispositivo de defesa do estuário, apenas pequenas fortalezas em Estômbar, Alvor e Belinho, junto à ribeira de Boina, controlavam visualmente o curso do Arade e o espaço portuário da Mexilhoeira da Carregação. O estuário era tão amplo que aí se deu a batalha naval entre a armada muçulmana vinda de Sevilha e a frota de piratas normandos, em 966.  Na conquista de Silves, em 1189, a frota portuguesa terá fundeado junto ao ilhéu do Rosário, na confluência da ribeira de Odelouca e rio Arade.

Na margem direita, no período romano, desenvolveram-se vários assentamentos e quintas dispersas, dedicadas à agricultura, à pesca e a indústrias de transformação, essencialmente de preparados de peixe, designando-se então Portimões estas populações vivendo na proximidade do rio Portimão, em muitos casos, abastados proprietários. Apenas no séc. XV, D. Afonso V autorizou a fundação da povoação de S. Lourenço da Barrosa, por solicitação de um grupo de moradores, mais tarde renomeada Vila Nova de Portimão.

O Cerro da Vila, em Vilamoura, local já ocupado desde o período pré-histórico, corresponde a uma antiga povoação, centrada numa imponente villa rústica romana dos séculos I ac. e VI dc. Na zona Oeste, situava-se uma estrutura portuária o que prova que nessa altura a ribeira de Quarteira abria para um amplo estuário, em torno do qual havia várias instalações romanas. Em Quarteira e um pouco mais a Este, em Loulé Velho, a cerca de 100 metros de distância da costa e a uma profundidade de 8 -10m, teriam existido povoações romanas comparáveis ao Cerro da Vila, datando dos séculos I ac. e VI dc., mas também, um local já ocupado anteriormente por um  povoado do Neolítico.

Leia também: Depois dos Romanos, novos povos | Por José Manuel do Carmo

Acedido em: https://sapientia.ualg.pt/entities/publication/dae80603-3d9e-43f8-80b8-8a1e71981445

Continue a ler este artigo no Postal do Algarve.


Publicado

em

,

por

Etiquetas: