“A fileira do olival e do azeite é um dos principais setores da economia agrícola nacional”

A olivicultura portuguesa afirma-se hoje como um dos setores mais dinâmicos da agricultura nacional, combinando tradição com modernização.

Nas últimas décadas, o setor registou avanços significativos em produtividade, qualidade e competitividade, posicionando Portugal como um dos principais produtores e exportadores de azeite a nível internacional.

A evolução tecnológica dos sistemas de produção e dos lagares, aliada ao investimento em inovação, permitiu elevar o padrão do azeite nacional e reforçar o seu reconhecimento nos mercados externos.

&nbsp

Ao mesmo tempo, o olival mantém uma forte ligação ao território, à paisagem e à cultura alimentar portuguesa, sendo um elemento crucial da identidade de muitas regiões do país.

A diversidade de sistemas produtivos, das explorações mais tradicionais às mais recentes, reflete a própria história da olivicultura nacional e coloca novos desafios ao setor, desde a valorização do produto à sustentabilidade da produção, passando pela gestão dos recursos naturais e pela adaptação às exigências ambientais e climáticas.

&nbsp

Estas perspetivas foram sublinhadas por Francisco Ataíde Pavão, vice-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), e por Susana Sassetti, diretora-executiva da Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal (Olivum), em entrevista à VIDA RURAL.

Francisco Ataíde Pavão, vice-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal

Susana Sassetti, diretora-executiva da Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal (Olivum)

Para Francisco Ataíde Pavão “a fileira do olival e do azeite é um dos principais sectores da economia agrícola nacional”, sublinhado que se trata de um dos “sectores mais competitivos da economia nacional e com um enorme sucesso ao nível da exportação”.

&nbsp

“A nível internacional, as profundas alterações ocorridas nesta fileira nos últimos 30 anos são um exemplo, quer pelo aumento da produção e produtividade nacional, quer pela alteração profunda dos sistemas de extração de azeite, o que permitiu que os azeites portugueses tivessem uma extraordinária qualidade”, concluiu.

Já a diretora-executiva da Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal enfatizou que “Portugal passou a ser altamente competitivo com este setor”, explicando-nos que, ao longo dos últimos 20 anos, “o setor olivícola em Portugal modernizou-se muito”.

&nbsp

E continua: “assistimos, sobretudo nas áreas de regadio, a um crescimento da área de olival, com sistemas de produção modernos, com tecnologia de ponta, o que tem permitido a afirmação internacional de Portugal como referência na produção de azeite”.

A nível internacional, as profundas alterações ocorridas nesta fileira nos últimos 30 anos são um exemplo.

Olivicultura: Identidade, território e tradição

O vice-presidente da CAP destacou a importância da cultura do olival, sublinhando tratar-se de “uma das mais representativas na paisagem agrícola nacional”, existindo um pouco por todo o país e sendo no interior, sobretudo no Alentejo, que tem uma “enorme expressão”.

Além disso, o porta-voz da Confederação dos Agricultores de Portugal enfatizou ainda que “o azeite é um dos principais elementos agregadores da nossa gastronomia, pelo que a sua utilização está bastante enraizada na nossa cultura”, alertando que, apesar disto, “é importante que os consumidores tenham mais literacia acerca deste nobre produto, quer ao nível da sustentabilidade da sua produção, quer ao nível das suas distintas utilizações gastronómicas”.

Já Susana Sassetti acrescentou que a olivicultura em Portugal tem mais de dois mil anos e acompanhou a própria construção histórica do território, frisando que “o olival tradicional português continua hoje a moldar a paisagem e a cultura rural do país”.

A responsável explicou ainda que, com a disponibilidade de água, em algumas regiões do país, “deu-se a modernização da olivicultura e a evolução tecnológica dos lagares, assistindo-se a uma diferenciação dos novos olivais, que permitem obter maior rendimento com menor área”.

O azeite é um dos principais elementos agregadores da nossa gastronomia, pelo que a sua utilização está bastante enraizada na nossa cultura.

Entre a inovação produtiva e a preservação do olival tradicional

Segundo a diretora-executiva da Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, “a paisagem do olival tradicional mantem-se em algumas partes do país e a renovação do olival continua, com paisagens muito diferentes, mas com a mesma existência de biodiversidade nestas novas paisagens, preocupação no uso eficiente da água, conservando o solo com todas as técnicas de que, hoje em dia, se dispõe”.

Para a responsável da Olivum, “o olival português é, realmente, uma referência a nível internacional e tem sido a elevada produtividade das suas explorações, decorrente da modernização dos sistemas de produção, e a excelente qualidade do azeite obtido, que o torna emblemático e tem dado nas vistas. Por outro lado, continua a existir o olival de variedades autóctones que originam um azeite muito típico e conhecido”.

Susana Sassetti salientou que “o olival de regadio está lançado e a obter resultados extraordinários”, contribuindo para o aumento da balança agroalimentar portuguesa e das exportações nacionais, mas alertou que “o olival tradicional precisa ser protegido dado o abandono a que tem sido sujeito”.

Recordou ainda que “os olivais tradicionais desempenharam, durante décadas, um papel fundamental na criação de emprego rural e na fixação da população”, sublinhando que, atualmente, este tipo de olival enfrenta “sérias dificuldades de manutenção”, sobretudo devido “à escassez de mão de obra e aos elevados custos associados às operações agrícolas que lhe são próprias”.

Os olivais tradicionais desempenharam, durante décadas, um papel fundamental na criação de emprego rural e na fixação da população.

Em contraste, destacou que “os olivais de maior densidade, quando dispõem de água e apresentam menor dependência das condições climáticas, conseguem assegurar a continuidade da produção, maior estabilidade económica e receitas relevantes provenientes da exportação de azeite e de outros produtos derivados”.

Acrescentou ainda que “tanto os olivais de sequeiro como os de regadio podem contribuir para a biodiversidade, a manutenção da saúde do solo e sequestro de carbono”, defendendo que estas são razões pelas quais “a cultura é emblemática e merece políticas diferenciadoras e específicas”.

O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.


Publicado

em

,

por

Etiquetas: