
O Algarve é uma região singular de Portugal, marcada por uma identidade cultural própria, pela sua história e pela sua importância económica. A relevância e os potenciais benefícios de uma união estratégica entre as duas grandes sub-regiões do Algarve: o Barlavento e o Sotavento, sustentada por uma abordagem integrada, poderia fortalecer a região em múltiplos domínios: político, social, económico e cultural. Embora o Algarve seja reconhecido como uma região coesa em termos identitários e históricos, “as suas duas metades” apresentam características distintas: o Barlavento destaca-se pela urbanização mais intensa, pelo turismo de massas e por centros populacionais maiores, já o Sotavento é marcado por uma economia mais tradicional, associada à pesca, agricultura, pequena indústria e um turismo mais tranquilo e ligado à natureza. Estas diferenças, longe de serem um obstáculo, podem ser complementares numa lógica de integração.
Fundamento a necessidade desta união recorrendo a vários estudos recentes, sobretudo o relatório da OCDE sobre a atratividade regional do Algarve. Esses documentos sublinham que a COVID-19 expôs a grande vulnerabilidade da região devido à dependência quase estrutural do turismo, que representa cerca de 60% do valor acrescentado bruto no setor da hotelaria e restauração, concentrado principalmente em concelhos como Albufeira, Loulé e Faro. Além disso, a evidência mostra fragilidades significativas relacionadas com o envelhecimento demográfico, desigualdades socioeconómicas, risco acrescido de pobreza e desafios associados à transição ambiental e energética.
Outro estudo, centrado na competitividade sustentável do turismo algarvio, reforça que o modelo atual precisa de se adaptar para evitar impactos ambientais duradouros, assegurar a preservação das tradições e garantir estabilidade social. A própria estrutura empresarial da região revela uma elevada sensibilidade às flutuações macroeconómicas globais, demonstrando que oscilações na procura turística têm efeitos diretos e substanciais na rentabilidade das empresas locais. O diagnóstico é claro: embora existam recursos abundantes, tal como o clima, paisagem, património natural e cultural, capital turístico consolidado, persistem vulnerabilidades que só podem ser mitigadas com coordenação e políticas integradas.
Do ponto de vista político, uma união entre Barlavento e Sotavento permitiria ao Algarve falar a uma só voz, aumentando a sua força negocial junto do Governo central e da União Europeia. A fragmentação administrativa ou a lógica de sub-regiões isoladas, leva frequentemente a duplicação de funções, competição por fundos e desigualdade no acesso a investimentos estratégicos. Uma governação regional integrada reforçaria a legitimidade das reivindicações algarvias e facilitaria a obtenção de fundos estruturais essenciais para a transição verde, inovação, mobilidade ou coesão social.
Além disso, esta união permitiria aplicar políticas mais equilibradas que beneficiassem tanto o litoral densamente povoado como o interior mais isolado. A evidência mostra que as desigualdades territoriais internas do Algarve são significativas, manifestando-se no acesso desigual à saúde, nos desequilíbrios demográficos e no risco mais elevado de exclusão social. Uma estrutura comum de governação poderia planear investimentos de forma mais justa e eficiente, evitando que os municípios mais vulneráveis, muitos deles situados no Sotavento e no interior, ficassem à margem do desenvolvimento.
Relativamente aos benefícios sociais, o Algarve apresenta um dos maiores riscos de pobreza do país, muito influenciado pela sazonalidade do emprego e pela concentração excessiva de oportunidades económicas em torno do turismo. Uma gestão integrada permitiria definir políticas sociais regionais capazes de responder às características específicas de cada área, mas num plano comum coerente. Isso incluiria estratégias unificadas de emprego, formação profissional, habitação, saúde e mobilidade.
A melhoria das acessibilidades internas é um ponto enfatizado: atualmente, muitos concelhos enfrentam dificuldades de transporte público eficiente, ligações insuficientes ao interior e falta de planeamento conjunto. Com coordenação, seria possível implementar redes de mobilidade intermunicipal mais eficazes, digitalizar serviços, reforçar cuidados de saúde primários e reduzir o isolamento das populações mais idosas.
A união também teria um impacto positivo na identidade cultural algarvia. Estudos sobre perceções de residentes e turistas indicam que a valorização da cultura local é fundamental para o desenvolvimento sustentável da região. Um Algarve unido poderia promover mais eventos culturais comuns, proteger melhor o património material e imaterial, reforçar o artesanato, a gastronomia e as tradições locais. Este reforço da identidade contribuiria para combater a desertificação do interior e promover um sentimento de pertença mais amplo entre as comunidades do Barlavento e do Sotavento.
A nível económico, salientaria que a demasiada dependência do turismo representa hoje o maior risco estratégico da região. Episódios como a pandemia demonstraram a necessidade urgente de diversificação. Uma união entre as duas sub-regiões permitiria coordenar esforços para desenvolver setores com alto potencial: agricultura de valor acrescentado, pesca e aquacultura sustentável, economia do mar, energias renováveis, tecnologias digitais, indústrias criativas e turismo não sazonal. A complementaridade geográfica e setorial entre Barlavento e Sotavento poderia facilitar a criação de polos de inovação e clusters regionais com massa crítica suficiente para atrair talento, empresas e investimento externo.
Outro aspeto crítico é o planeamento de grandes infraestruturas. Ligação ferroviária interna eficiente, redes de autocarros intermunicipais robustas, modernização de estradas e portos ou investimentos em logística seriam mais fáceis de concretizar com um planeamento conjunto e não fragmentado. A eficiência em transportes e logística é hoje decisiva para a atração de investimento e o Algarve tem perdido oportunidades por falta de coordenação.
Criada com o propósito nobre de coordenar estratégias regionais, promover o desenvolvimento equilibrado e dar voz conjunta aos 16 municípios algarvios, a AMAL tem-se limitado a desempenhar um papel tímido, frequentemente mais administrativo do que político. A falta de integração entre os transportes, a ausência de articulação tarifária e a inexistência de uma visão regional para a ferrovia mostram uma instituição que reage, mas raramente lidera. O Algarve precisa de uma voz forte perante o Governo. Precisa de defender melhorias ferroviárias, redes de autocarros coordenadas e soluções de mobilidade sustentável que reduzam congestionamentos e desigualdades territoriais. No entanto, a AMAL continua presa a consensos cautelosos entre autarcas, incapaz de transformar diagnósticos em ações concretas.
No turismo, uma estratégia integrada permitiria distribuir melhor os fluxos turísticos ao longo do território e do ano, reduzindo a concentração excessiva no Barlavento, como se verifica em Portimão e Lagos. O Sotavento, com paisagens naturais mais preservadas, riqueza cultural e tradições fortes, tem potencial para turismo de natureza, cultural, gastronómico e rural, segmentos que mitigam a sazonalidade e promovem a sustentabilidade, assim como, no Barlavento se observam os bons exemplos deste tipo de turismo nas localidades de Sagres, Aljezur e Odeceixe. Ao articular estes recursos sem disrupções, o Algarve poderia construir uma oferta turística mais diversificada, equilibrada e valorizadora da sua identidade.
A conclusão desta reflexão é clara: a união entre Barlavento e Sotavento, apoiada por evidência académica e empírica, representa uma oportunidade estratégica para enfrentar os desafios que a região já vive: desigualdades, envelhecimento, vulnerabilidade económica, riscos ambientais e dependência do turismo. Esta abordagem integrada permitiria reforçar a representatividade política, reduzir assimetrias sociais, diversificar a economia, promover o turismo sustentável e fortalecer a identidade cultural.
Sublinha-se, no entanto, que esta união exige compromisso político, participação cidadã, boa governação e investimento planeado. Sem cooperação entre as sub-regiões, o Algarve continuará a enfrentar desafios estruturais difíceis de superar isoladamente. Nesse sentido, concluo apelando à reflexão e à consideração séria deste modelo de integração como caminho para um futuro mais forte, resiliente e equilibrado para toda a região algarvia.
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