Água do Sado “entrou por todo o lado” em Alcácer do Sal

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Quando a maioria dos comerciantes da Avenida dos Aviadores, em Alcácer do Sal, saiu para almoçar no dia que se seguiu à chegada da depressão Kristin a Portugal, o cenário já preocupava, mas para a maioria estava longe de ser alarmante numa zona que convive com algumas cheias. No entanto, poucas horas depois, perceberam que não era uma subida da maré como as outras. “Precavi-me e quando comecei a ver a água a subir mandei os quarenta idosos do centro de dia todos para casa”. Depois Paula, diretora de um lar, não teve remédio e também evacuou o espaço onde vivem 20 idosos.

“Em quinze minutos ficámos com a água pelo joelho, foi tudo muito rápido. Só tive tempo de desligar o quadro da luz e esperar que chegassem mais pessoas”, acrescenta Maria Jones. 24 horas depois o cenário era catastrófico, com a água que subiu cerca de um metro a cobrir a avenida com quarenta metros de largura. Já esta segunda-feira, quando o Observador se deslocou ao local, multiplicavam-se os sacos de areia nas portas para tentar evitar a ameaça de novas cheias. Na madrugada que se seguiu, a avenida voltou a ficar inundada.

A Proteção Civil alertou para a repetição deste fenómeno com especial atenção nos dias 5 e 8 de fevereiro. Mas não foi preciso esperar até tanto. “O rio subiu esta madrugada como prevíamos e, tal como foi alertado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), não está a descer, continua com um nível muito elevado”, revelou esta terça-feira à agência Lusa o comandante sub-regional de Emergência e proteção Civil do Alentejo Litoral, Tiago Bugio. Durante esta madrugada, “alagou um pouco a marginal do lado da câmara municipal, mas já baixou, e inundou a Avenida dos Aviadores até ao mercado municipal, subindo cerca de um metro, sem baixar”.

Em Alcácer do Sal estão por todo o lado os vestígios de um rio que subiu mais do que o esperado, mas os comerciantes — numa avenida que também conta com algumas habitações e um hotel em construção — não perderam tempo a lamentar: arregaçaram as mangas e calçaram galochas para entrar nas lojas que estão cheias de água. Aqueles cujos estabelecimentos ficaram em melhor estado, como Maria Jones, aproveitam para ajudar os vizinhos.

Do lado da avenida mais perto dos arrozais colados ao rio Sado, várias pessoas vão entrando na loja onde eram visíveis mais estragos, antes da nova inundação. Com a água enlameada pelos tornozelos, esta segunda-feira várias pessoas passaram pelos corredores de uma loja para retirar o que ainda era possível salvar. No passeio, junto à entrada do estabelecimento, amontoavam-se sacos do lixo e caixas com todo o tipo de material que estaria à venda: quadros, pratos, baldes, caixas.

Com aquele dia 28 bem presente na memória, José Goucha caminhava com uma lanterna nas divisões da correaria Goucha, uma loja clássica na paisagem alcacerense. “Não tivemos hipóteses nenhumas. A água subiu tanto… Em cinco minutos já tínhamos água pela cintura. Podíamos tentar tapar a porta, mas depois vinha pelas casas de banho, pelas fossas, por baixo, por trás, por todo o lado. A água entrou por todo o lado, não tínhamos hipóteses”.

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