
Isabella estava exausta depois de quase seis horas a trabalhar no campo debaixo de um sol escaldante. O corpo tremia-lhe sem parar e começou a vomitar. Ainda faltavam duas horas para o seu turno acabar e “no trabalho ninguém pode ficar doente”, ouviu como resposta de Andrei, um dos homens que, de arma à cintura, supervisionava a plantação. “Que
Os trabalhadores não podiam parar quando estavam doentes. Não podiam parar para beber água. Também não podiam parar para ir à casa de banho. Nem sequer existiam instalações para isso, sendo obrigados a fazer as necessidades nas próprias plantações e às escondidas. “Tu achas que eu nunca bati em colombianos? Tu achas que eu nunca fiz coisas más a colombianitos? Estás enganado comigo. Se tu continuas a meter-te, eu desconto-te todas as horas que trabalhaste e não vos pago nada”, ouviu Esteban de Andrei, que lhe mostrou uma arma, quando tentava cobrir um colega que precisou de se aliviar. “Se tu não tens provas que trabalhaste então eu não te posso pagar”, era outro dos argumentos usados.
Os homens e as mulheres que trabalhavam para este grupo, todos em situação irregular, chegavam a Portugal vindos de países como a Roménia, a Moldávia, a Colômbia, Marrocos e o Peru. Eram aliciados por anúncios online que prometiam um salário de até 1.500 euros, com alojamento assegurado. Mas ao chegar a Portugal eram colocados em casas sobrelotadas e degradadas, sendo obrigados a trabalhar de forma praticamente ininterrupta nos campos, sem nunca receberem o pagamento prometido. Vários passaram fome e chegaram a pedir dinheiro na rua apenas para poder comer. Tudo isto deu como provado o tribunal de Beja, que condenou os membros da rede a penas de prisão entre os três e os nove anos e meio este mês.
“Se necesito dez chicos para trabajar en recogida de frutas en Portugal, no requiere papeles, sueldo 1,200“. O anúncio, que prometia “trabajo todo el año”, era tentador. E era pegar ou largar: o ponto de encontro era naquela mesma noite na cidade espanhola de Gandia, em Valência, às 23h. Foi através de ofertas como estas, publicadas em diversas plataformas, que a rede liderada por Vasile conseguiu, pelo menos desde 2019 e até 2023, aliciar imigrantes a vir trabalhar em explorações agrícolas em várias zonas do Alentejo e nos arredores de Lisboa.
O romeno, de 37 anos, estava por trás de toda a operação. Era ele quem estabelecia as relações com as explorações agrícolas para lá colocar a mão de obra angariada pelo grupo. “Acordava com os empresários agrícolas as quantidades de mão de obra e os períodos de tempo necessários para as tarefas agrícolas que pretendiam realizar, gerindo a disponibilidade de trabalhadores agrícolas para o efeito”, lê-se no acórdão do Tribunal de Beja consultado pelo Observador. Era também a ele que todos os outros reportavam, fosse sobre questões de alojamento, transporte, do trabalho nos campos ou pagamentos.
Para gerir a rede de trabalhadores Vasile contava com a família e vários colaboradores. O irmão, Alexandru, ia frequentemente buscar os imigrantes a terminais de autocarros em Portugal, outra vezes ia encontrar-se com eles a Espanha. Também tratava do alojamento em casas arrendadas por Vasile, que estavam sobrelotadas, com várias pessoas a dormir no mesmo colchão, no chão. Além disso, vigiava os trabalhadores, quer nas casas, quer nos campos. O romeno era conhecido por andar armado quando vigiava as plantações, apesar de não ser o único a fazê-lo. “Enquanto aqui estiver não vai acontecer nada”, chegou a dizer a um encarregado de uma herdade, levantado a camisa e exibindo a arma que trazia escondida.