A Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP) expressou um apelo ao Governo e aos restantes partidos para que façam todos os esforços para apoiar as populações, incluindo os agricultores, afectadas por «fenómenos naturais»: incêndios e por eventos climáticos severos. «A AJAP lança um forte apelo, ao Governo e aos partidos da oposição, para que esqueçam as aritméticas dos votos e o défice e sejam verdadeiramente solidários com todo um povo sofredor, resiliente, que sempre disse ‘presente’ quando lhe foram pedidos sacrifícios. É chegado o momento de sermos solidários e retribuirmos com quem perdeu quase tudo e está sem forças para se agarrar a quase nada.»
A associação defende que «o Governo tem de esquecer os limites orçamentais e tem o dever de ajudar as pessoas, as empresas, os empregos, os agricultores e os jovens agricultores», acrescentando que «o atraso nas ajudas e ajudas à base de empréstimos vão seguramente provocar falências, despedimentos, um caos na economia e o descrédito nas instituições». A AJAP diz também que «reconhece o estado de preocupação do Governo, nomeadamente do ministro da Agricultura e Mar e seguramente o ministro da Economia e Coesão, mas as Finanças não podem complicar».

«Em nome do país, urge “salvar” tanta gente do rasto da desgraça, da miséria e dos prejuízos muito avultados que os incêndios de 2025, acrescidos deste ‘comboio de tempestades’, provocaram na vida das pessoas, nomeadamente nos seus bens (habitações) e até no emprego. O mesmo em relação a muitas empresas que não vão conseguir reerguer-se, sejam de pequena, média ou grande dimensão, e aos agricultores, se os apoios não chegarem a tempo. Imaginamos o esforço que tantos empresários vão ter de fazer para se aguentar, o mesmo para os agricultores e jovens agricultores que viram quase tudo ir “por água abaixo”, ou destruído pela água que os invadiu», afirma a associação. Este apelo surge na sequência da visita do comissário europeu da Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, a Portugal, no dia 17 de Fevereiro – onde este visitou várias explorações agrícolas que sofreram severos danos nas regiões afectadas pelas recentes tempestades, nomeadamente em Leiria e Pombal –, a qual foi acompanhada por Firmino Cordeiro, director-geral da AJAP, numa comitiva que incluiu também dirigentes da CAP, da Confagri, dos vice-presidentes com pelouro da Agricultura das CCDR Centro e de Lisboa e Vale do Tejo, de outros técnicos do Ministério, do presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura e Pescas e do presidente da Câmara Municipal de Leiria.
A AJAP sublinha que «o fenómeno das alterações climáticas é uma realidade cruel com a qual temos de conviver» e para a qual temos de «nos precaver o mais possível» – «A exposição de Portugal a estes fenómenos é enorme, mas infelizmente, a nível estrutural e preventivo, o país ainda não está suficientemente preparado para acautelar o mais possível estas intempéries naturais» – e que é «impensável ter um país a duas velocidades» – uma parte que ocupa 20% do território e onde reside 80% da nossa população e uma outra parte que ocupa 80% da área total e onde reside apenas 20% da população. «O investimento nestes territórios não pode ser feito apenas a pensar no seu número de habitantes, tem de ser equacionado com base numa reflexão mais profunda, para percepcionar onde todos falhámos com 80% do país ao longo destas cinco décadas», refere a associação, indicando propostas sobre vários pontos: seguros, “Água que une”, jovens agricultores e jovens empresários rurais.

Seguros – «É inconcebível não existirem seguros para muitos destes riscos. As companhias têm de ter à disposição oferta de seguros específicos que possam acautelar estas e outras situações no sector agrícola, florestal, pecuário e agroindustrial. É inconcebível que a União Europeia e os diferentes Estados-membros, sabendo destas lacunas, ainda não tenham criado um mecanismo de resseguros, juntamente com o Banco Europeu de Investimento (BEI) e, no caso português, o Banco Português de Fomento (BPF). Estamos convencidos de que, a verificar-se este esforço por parte das instituições europeias e nacionais, bem como dos diferentes Estados-membros, as companhias de seguro facilmente poderiam ter estes produtos específicos na sua carteira. Neste conjunto de produtos de seguros específicos destinados ao sector, existindo bonificação do prémio, o seguro deveria ser obrigatório para os agricultores. Aliás, este foi um dos temas que o ministro José Manuel Fernandes defendeu junto do comissário europeu da Agricultura, o qual mereceu boa aceitação por parte do responsável, e que a AJAP tem defendido há alguns anos.»
“Água que une” – «A iniciativa ‘Água que Une’ (apresentada pelo XXIV Governo no final do seu mandato) é extremamente pertinente. Mais facilmente conseguimos atenuar catástrofes provocadas pelas cheias se guardarmos a maior capacidade possível de água a montante, através das barragens existentes e de novas barragens. A água é essencial à vida das pessoas, plantas e animais, é necessária aos centros urbanos, periurbanos e rurais, é necessária para todas as actividades económicas, e necessariamente em maiores quantidades para o sector agrícola, que quase por “milagre” transforma água em alimentos.»

Jovens Agricultores – «A forte aposta nos Jovens Agricultores por parte do actual Governo Português faz todo o sentido (o percentual de Jovens Agricultores em Portugal no total dos agricultores é de 3,7%, ao passo que, para a média europeia, esse percentual é de 12%). Necessitamos de instalar mais Jovens Agricultores na maioria dos nossos modelos de agricultura, pois se o fizermos apenas nos modelos mais competitivos, por esta via, muito do nosso território é abandonado, como infelizmente se tem verificado nas últimas décadas. Relativamente às ajudas ao investimento, têm de ser mais robustas nos territórios onde a agricultura, floresta e pecuária é mais difícil (pela topografia, pela agressividade do clima, pela longevidade aos mercados, pela ausência de infraestruturas coletivas, como o regadio). Nestas regiões, a instalação de Jovens Agricultores tem de apostar na consociação entre a agricultura, pecuária (preferencialmente com raças autóctones) e floresta. Nestes territórios difíceis, os agricultores também são guardiões da natureza, da floresta e até “bombeiros de serviço”. Estamos convencidos de que este modelo de agricultura, associado a práticas de turismo rural, podem ambas as actividades complementarem-se e, no fundo, tornarem-se mais viáveis. O sector agrícola está a complicar-se cada vez mais em toda a sua dimensão. São necessários investimentos cada vez mais avultados, as alterações climáticas cada vez agudizam mais a vida aos agricultores, os preços a que se comercializam as suas produções não acompanham o ritmo a que sobem os factores de produção (energia, fertilizantes, agroquímicos, medicamentos veterinários, entre outros). Ou seja, este é um sector extremamente delicado, exigente e que merece, dada a sua importância estratégica na produção de alimentos, no desenvolvimento dos territórios rurais, na manutenção da paisagem, da biodiversidade, dos ecossistemas e das áreas florestais, bem como na melhoria da coesão territorial, um posicionamento bem diferente na hierarquia de qualquer Governo.»
Jovens Empresários Rurais – «Facilmente se compreende que, em face da actual realidade dos territórios rurais, é necessário atrair e fixar mais pessoas, jovens e empresas. Mas temos de melhorar as condições de vida (habitação, saúde, acesso à Internet). Felizmente, as nossas aldeias, vilas e cidades estão organizadas graças ao trabalho dos autarcas, mas todo o ecossistema tem de participar e estar envolvido neste enorme desafio (atrair pessoas, jovens e empresas). A atracção de jovens não se apresenta fácil, mas parece-nos mais exequível se operacionalizarmos a figura do Jovem Empresário Rural (JER) e estimularmos a inovação, o empreendedorismo e a utilização de novas ferramentas tecnológicas. Temos de equilibrar a interacção entre os territórios rurais e urbanos, divulgar o potencial destes territórios e melhorar, ano após ano, a sua atractividade, a criação de emprego, a procura turística, para quem procura turismo de natureza, ar puro, tranquilidade, mas também para quem gosta de desportos de natureza e outros.»
O artigo foi publicado originalmente em Revista Frutas Legumes e Flores.
