As zonas húmidas na prevenção de inundações

Nestes últimos dias, nada mais se tem falado a não ser da devastação do território devido às tempestades #Ingrid, #Joseph e agora à depressão #Kristin. A situação de calamidade abarca inúmeras regiões por onde a chuva e o vento levaram tudo a eito, deixando um rasto de destruição, em particular nas populações mais frágeis.

Vai-se o mau tempo, abrigam-se e confortam-se as populações e tudo o mais se esquece. Para além das alterações das pressões oceânicas que o aumento da temperatura da água do mar tem originado – e irá continuar a ser o novo normal -, há uma (ir)responsabilidade no ordenamento do território. Os leitos dos rios são alterados, as ribeiras são entulhadas, as valas de drenagem associadas às zonas húmidas são desprezadas e as casas, parques, ou empresas são construídas em leitos de cheia e vales de drenagem. O crescimento populacional e os interesses económicos ligados à urbanização colocam uma pressão acrescida sobre as mal-amadas zonas húmidas que inundaram.

Foi há 55 anos que as Nações Unidas declararam 2 de Fevereiro como o dia das Zonas Húmidas, para aumentar a consciencialização nacional e global sobre estas zonas. Independentemente deste alerta, estamos a perder zonas húmidas três vezes mais rápido do que florestas. Apesar de cobrirem apenas cerca de 6% da superfície da Terra, 40% das espécies dependem destes habitats. São ecossistemas extremamente importantes que contribuem para a biodiversidade, mitigação e adaptação climática, disponibilidade de água doce, economias mundiais e muito mais.

São áreas vitais porque prestam diferentes serviços ecológicos de que o Homem depende.

Para a conservação da biodiversidade funcionam como refúgio e berçário de inúmeras espécies. Retêm temporariamente a água das chuvas ou a subida da água do mar, absorvendo-a e libertando de forma gradual para os rios, lagos e até mesmo para reabastecer os aquíferos. Funcionam como sequestradores de carbono, como filtros naturais de nutrientes e poluentes, melhorando a jusante a qualidade da água.

Em zonas costeiras ajudam a proteger contra tempestades, subida do nível do mar e erosão costeira. Para as populações em geral são reservatórios naturais, garantindo água para consumo humano, agricultura e outros usos em muitas regiões.

Com base em relatórios oficiais enviados pelo instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) à Comissão Europeia (período 2013–2018), 77% das zonas húmidas em Portugal (Continente e Regiões Autónomas) encontram-se degradadas, ou em estado de conservação desfavorável. Esta situação aparece sobretudo associada à perda histórica de áreas húmidas em certas regiões, não apenas ao estado actual de conservação.

Em cada ano, o Dia Mundial das Zonas Húmidas propõe um tópico específico. Em 2026, explora as ligações profundas entre as zonas húmidas e as práticas culturais, em particular o papel intemporal do conhecimento tradicional na sustentabilidade dos ecossistemas das zonas húmidas e na preservação da identidade cultural.

Um dos exemplos de zona húmida que continua ameaçada são as Alagoas Brancas, no Algarve, descritas como o último fragmento de uma antiga zona húmida muito mais extensa, constituída por duas grandes lagoas com água doce em abundância, que dava suporte à exploração agrícola e à pesca. Estabelecidas numa depressão cársica, no seio de um aquífero aluvionar funcionam como esponja” natural e armazenam grandes quantidades de água doce em eventos extremos.

É esta zona de lagoas que está na origem do próprio nome da actual cidade de Lagoa. Há um valor identitário como parte da memória colectiva de uma cidade que nasceu da água e continua a ter muita água”, como paisagem de referência. O nome Alagoas Brancas” está associado à presença sazonal de grandes manchas de flores brancas (Ranunculus spp) que cobrem a superfície da água na Primavera. Actualmente, foram já identificadas espécies com estatuto de protecção, que levou o ICNF a considerá-la uma zona com estatuto de conservação.

Em 1988, Lagoa sofreu inundações graves e as Alagoas Brancas, apesar de funcionarem como bacia natural de retenção de água, inundaram-se. A precipitação excepcional intensa num curto período e a insuficiente limpeza da drenagem urbana foram as causas mais prováveis. Se essa zona húmida estivesse ocupada ou aterrada teria aumentado significativamente o risco de cheias e danos em pessoas e bens. Mas foi essa a solução encontrada após 1988: em lugar de reforçar a função de bacia de retenção, de alargamento e de limpeza das valas de drenagem, a área húmida acabou por diminuir e deu-se a expansão urbana/económica.

Graças a um movimento de cidadãos e a algumas ONG, as Alagoas Brancas podem ainda ser salvaguardadas e vir a constituir um exemplo de uma solução mais resiliente e económica para minorar futuras calamidades.

Em dia de Zonas Húmidas e após as tempestades que têm vindo a assolar o nosso país – e irão continuar – é urgente ter uma abordagem baseada em soluções naturais, mais baratas e eficazes do que as infra-estruturas cinzentas, impermeáveis. O vento e a chuva passam, provocam cheias, mas as depressões húmidas naturais, actuam como “amortecedores” naturais, retendo água e reduzindo picos de inundação na baixa urbana.

É irónico pensar que em muitas zonas europeias e americanas, constroem-se zonas húmidas artificiais – os chamados “Blue belts” – para mitigar as inundações. Cá, continuam a ser as mal-amadas.

Quando é que nos mentalizamos que a tecnologia humana não pode deixar de respeitar a força da Natureza?

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