Quem poderia prever que a barragem da Bravura, em Lagos, que chegou a estar com níveis críticos de armazenamento entre 2023 e 2024, com apenas 10%, situando-se frequentemente entre as barragens com menor percentagem de água a nível nacional, esteja neste momento a proceder a descargas por ter atingido o seu volume máximo de armazenamento.
O milagre da abundância de água na região do Algarve, que há duas décadas sofria de prolongados e sucessivos períodos de seca severa e extrema, deixou as suas seis principais barragens Arade, Funcho, Odelouca, Bravura, Beliche e Odeleite com reservas de água entre os 80 e os 100%.
Destas, “cinco já fizeram descargas preventivas para não ultrapassarem o nível que possa pôr em causa a segurança das barragens”, explicou à Lusa José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente.
Há 20 anos que o Algarve não tinha as barragens tão cheias, o que garante água para todos os fins durante os próximos dois anos. Cerca de 30 milhões de metros cúbicos foram acumulados em 11 dias de precipitação forte, que equivale a cerca de 40% do consumo urbano anual da região. Esta recuperação significativa contrasta com a situação registada há apenas um ano, quando as reservas garantiam água apenas por alguns meses.
A poucas dezenas de quilómetros de distância, na bacia do Mira, a barragem de Santa Clara, que esteve quase uma década à míngua de água e chegou a estar ameaçado o consumo humano, apresenta neste momento um volume de armazenamento que está nos 70%.
E na bacia do Sado, com 80,6% de água armazenada nas suas dez barragens, assistiu-se, durante décadas, à crónica escassez de água. A barragem de Monte da Rocha, que permaneceu no vermelho desde 2015, apresentava no dia 27 de Janeiro de 2025 um volume 13.399m³ (13%) quando a sua capacidade máxima é de 104.500m³. No mesmo dia, mas em 2026, recebeu 46.827m³ de água (47%). Este é um volume superior às albufeiras de Fronhas (46%) Lagoacho (43%) e Vale de Rossim (46%), todas na bacia do Mondego que, nas suas oito barragens, tem uma reserva hídrica de 64,2%, o volume mais baixo a nível nacional, que deixou de estar registado no Sul do país.
Sucessivas depressões atmosféricas — o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) designou a Joseph como a décima grande tempestade da época 2025-2026, e agora chegou a Kristin — elevaram as cotas de 61 das 80 albufeiras públicas nacionais, monitorizadas pelo Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos para valores entre os 80 e os 100%.
No dia 26 de Janeiro, o armazenamento total era de 11.509hm³ (87%). Nas duas últimas semanas, registou-se um acréscimo de 774hm³ na água, praticamente a mesma quantidade de água que Alqueva vai passar a disponibilizar, anualmente, para o regadio no Sul do país. E, nos próximos dias, as afluências às albufeiras irão aumentar ainda mais a quantidade de água armazenada.
Ao fim da tarde de segunda-feira, iniciaram-se as descargas na barragem de Castelo do Bode, quando o seu armazenamento se encontrava nos 90%, bem como na barragem do Caia, que atingiu cerca de 96% da capacidade, e no Pego do Altar (ambas em Portalegre).
Outras barragens por todo o país terão de proceder à abertura das suas comportas para descarregar o excesso de água. É necessário garantir capacidade de encaixe, dado o elevado volume de afluências que continuarão a ser debitadas nos próximos dias.