Barragem de Girabolhos poderia ter impedido rebentamento do dique em Coimbra? A SIC Verifica

SIC Verifica

Um dos diques do Mondego colapsou na passada quarta‑feira à tarde após os rios Mondego e Ceira terem atingido um volume de água nunca antes visto. Na sequência do rebentamento, recorda-se o projeto da barragem de Girabolhos que se arrasta há mais de 20 anos. Será que poderia ter impedido o colapso do dique? A SIC Verifica.

Loading…

Poucas horas depois do rebentamento do dique do Mondego para a margem direita do rio nos Casais, em Coimbra, o Governo anunciava oficialmente o lançamento do concurso “para a construção e exploração do Empreendimento de Fins Múltiplos de Girabolhos (EFMG)”, a implantar na bacia hidrográfica do rio Mondego.

O despacho, assinado na quarta-feira (no mesmo dia em que o dique rebentou) pela Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, estabelecia o avanço do concurso e incumbia a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) de o promover até ao final do mês de março de 2026. O projeto não é, contudo, novidade e desde então muito se tem falado da barragem que estava na gaveta há mais de 20 anos.

Será que poderia prevenir o colapso?

O antigo ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, em declarações à Renascença, garante “com grande certeza” que “com aquilo que choveu e com aquilo que infelizmente ainda está a chover e aí vem, haver Girabolhos ou não haver Girabolhos era rigorosamente idêntico para aquilo que está a acontecer no Baixo Mondego”.

Girabolhos estaria mais do que cheia, estaria neste momento a fazer enormes descargas, que seriam uma pressão acrescida sobre a Aguieira, que faria ainda mais descargas para o troço final“, considerou o antigo governante.

Helena Simão, coordenadora hidráulica da Ordem dos Engenheiros, assumiu na emissão da SIC Notícias de dia 12 de fevereiro que a nova barragem iria “contribuir para a regulação dos caudais do Mondego” e poderia ajudar, servindo como uma “irmã” da barragem da Aguieira, no volume de água que se acumulou.

Mas impediria? Não. Face ao evento excecional que marcou a primeira quinzena de fevereiro, como explicam especialistas consultados pela SIC, a existência desta obra não faria diferença no rebentamento do dique.

Joaquim Poças Martins, ex-secretário de Estado do Ambiente, considera que as “inundações no Vale do Mondego podem ser atenuadas com a construção de barragens“, porém, “Girabolhos não consegue impedir que haja inundações ajusante Coimbra“.

Loading…

No mesmo sentido, aponta o engenheiro Carlos Mineiro Aires, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros que era presidente do Instituto da Água em 2001, quando também rebentou um dique no Mondego. Na sua perspetiva, “numa situação normal, Girabolhos é importante para ajudar a atenuar“, mas “numa situação como esta, pouco iria acrescentar, porque neste momento as coisas estão muito complicadas“.

Mineiro Aires lembra que “há outros afluentes, por exemplo, na margem direita, há o rio Ceira, que esse não é possível fazer qualquer barragem lá” e este “também tem contributos na ordem das centenas de metros cúbicos por segundo”.

“Vamos ser claros, a causa maior de tudo isto é, sem dúvida nenhuma, condições meteorológicas extremamente adversas“, sublinha.

Loading…

Ambos reforçam ainda que teria sido importante que esta obra tivesse um “dono”, uma “solução institucional” que “recebesse a obra e a explorasse”.

Poças Martins explica que “as obras, em princípio, devem ter um dono, tem que haver um responsável, um dono”, mas que esta “nunca foi de facto entregue, nunca foi possível criar uma entidade gestora” como uma empresa ou equivalente.

Uma situação dessas [de haver uma entidade gestora] permitiria, com certeza, ter um tipo de acompanhamento mais próximo. Não conheço o programa de fiscalização, o programa de acompanhamento manutenção daquela obra, mas não é certamente fácil. A obra é muito extensa e, comparando com o Elevador da Glória que é muito mais simples e infelizmente correu mal, numa extensão daquelas, tão grande, não terá sido possível avaliar todos os órgãos“, detalha o engenheiro.

Mineiro Aires segue a mesma lógica, sublinhando que “não há uma estrutura para gerir” aquela obra. “Ter uma estrutura destas sem ter uma manutenção constante, uma observação constante, uma monitorização, é óbvio que é mau”, detalha o engenheiro.

“Lembro-me bem do que aconteceu em 2001 [rebentamento de um dique no Mondego] e, de lá para cá, pouco ou nada foi feito“, frisa.

A SIC Verifica que é…

Numa situação normal, a Barragem de Girabolhos, agora ‘ressuscitada’ pelo Governo de Luís Montenegro, poderia ajudar no controlo de inundações. Mas, face às condições meteorológicas extremamente adversas” e à situação excecional da primeira quinzena de fevereiro, a existência de Girabolhos não impediria, por si só, o rebentamento do dique.

Veja a reportagem na SIC Notícias.


Publicado

em

,

por

Etiquetas: