As barragens portuguesas estão cheias como nunca, com níveis entre os 80% e os 100%, que o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado, classifica como “históricos”. Por isso, vai ser necessário fazer mais algumas “descargas lentas”, diz, para “garantir margem de encaixe para absorver episódios de precipitação intensa”, explicou o presidente da APA.
“Como diz o ditado, em Abril, águas mil”, acrescentou Pimenta Machado, para justificar as medidas de precaução a tomar com as albufeiras cheias em pleno Inverno. Tejo, Mondego e Sado são as bacias hidrográficas prioritárias para essas intervenções destinadas a evitar cheias descontroladas.
E haverá risco de cheias, com essas descargas, em alguns locais de maior risco? “Não, se forem lentas”, assegura o presidente da APA. “Temos tempo, as previsões até final do mês não dão grande chuva. E como ainda estão a recuperar das cheias, temos de fazer lentamente”, completou.
O objectivo é reduzir o nível das águas nas albufeiras até chegar à cota habitual para Março verificada entre 1990/91 e 2023/24, para ganhar encaixe para futuros episódios de precipitação.
Barlavento a 100%
Neste momento, o volume de água total armazenado está a 95% da capacidade total, e 76 albufeiras estão preenchidas entre 81% e 100%. Nessa categoria, mesmo com 100%, estão até as barragens do Barlavento, cronicamente deficitárias de água. Há um ano, estavam apenas a 20,7% da capacidade.
Há várias outras bacias hidrográficas com as barragens muito perto dos 100%, como o Vouga (99,7%), Oeste (99,3%) o Ave (97,2%), o Tejo (94,3%), ou o Guadiana (96,3%), com valores que em alguns casos são quase 30 pontos acima da média. São valores recorde, que têm como ano base 1990-1991, porque dependem do ano de construção das barragens, explicou Pimenta Machado.
Mas é mesmo no Sul do país que os valores são mais impressionantes. Além do Barlavento, onde o armazenamento de água está 30 pontos acima da média – e muito mais do que o registado nos últimos anos –, no Sado e no Mira os valores são igualmente notáveis. A bacia do Sado está agora a 98,1% da sua capacidade, quando a média era de 60,1%. E o Mira está 97,8%, quando a média histórica é de 73,7% – e, em Fevereiro de 2025, se encontrava apenas a 40,4%.
Este é o resultado de um ano hidrológico que já está a bater recordes. Em Coimbra, já foram registados até às 11h00 de 17 de Fevereiro 1238 milímetros (o correspondente a um litro de água por metro quadrado) de chuva, o que fica acima do anterior máximo, de 1966: 1200,5 milímetros, registados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), avançou Pimenta Machado. “Isto reforça a necessidade de reavaliar as infra-estruturas do Baixo Mondego e a gestão de cheias no Mondego, face às alterações climáticas”, salientou o responsável da APA.