por henrique pereira dos santos, em 13.01.26
Não deve haver campanha política em que não apareçam boatos, tal como não há dia em que não haja ignições.
O que faz um boato qualquer espalhar-se como fogo em erva seca num dia de vento forte não é a qualidade ou a veracidade do boato, é o contexto em que surge.
Por exemplo, os boatos sobre as ligações aos interesses de Marques Mendes (até ver, não passam de boatos, ninguém fez qualquer demonstração de que exista uma submissão de Marques Mendes a interesses inconfessáveis) prosperaram o suficiente para, aparentemente, afectar a candidatura e motivar alguma transferência de intenções de voto de Marques Mendes para Cotrim porque a ideia de que Marques Mendes sempre se moveu nos círculos de influência do poder é uma ideia generalizada, tornando aceitáveis os boatos sobre obscuros tráficos que influência.
Os boatos são, frequentemente, assentes em processos de intenções, sendo Cotrim um praticante aberto dessa actividade.
Não o digo com base em várias pessoas que se queixam das suas actuações ínvias para com elas (é ver como foram tratados vários dos seus adversários internos na IL), mas com uma incidência bem ilustrativa desta campanha: a forma como sempre que as sondagens lhe são favoráveis trata os seus resultados como se fosse a Verdade revelada, e como depois as desconsidera quando lhe são desfavoráveis.
Todas as campanhas fazem mais ou menos isto, mas apenas a campanha de Cotrim faz autênticas diatribes com processos de intenções contra os responsáveis pelas campanhas, isto é, não fala apenas das limitações da sondagem que lhe é desfavorável, desqualifica os seus responsáveis técnicos atribuindo-lhes uma intenção deliberada de o prejudicar.
E este é um padrão de comportamento muito frequente em Cotrim que, em si, não o qualifica nem desqualifica para presidente, tem muitas qualidades, é o candidato de que estou mais próximo ideologicamente no que diz respeito a um programa de governo, mas a verdade é que esse tipo de comportamento exponencia o risco político dos boatos sobre o seu carácter revanchista (não falo das outras componentes dos boatos porque acho que dessas matérias não se pode falar levianamente e sou absolutamente contra os julgamentos sem direito a defesa que se fazem com base no princípio de que quem denuncia tem sempre razão).
As suas declarações sonsas sobre Ventura talvez venham a ter alguma influência nos indecisos (ver o artigo de João Miguel Tavares de hoje, no Público) que têm uma pedra no sapato em relação à forma como saiu da presidência da IL (só não estou nesse grupo por não ter indecisão nenhuma, nunca votaria Cotrim para Presidente da República por causa da percepção que tenho desse processo, excepto se a segunda volta for entre ele e Ventura), eu tenho dúvidas de que coisas pontuais tenham essa importância numa eleição unipessoal em que todos têm uma longa história pessoal conhecida, mas se tiver alguma influência no resultado final, não é pelos boatos, é porque o contexto em que aparecem é favorável à sua progressão.
Exactamente como nos fogos florestais, o que não falta é gente a querer resolver tudo eliminando as ignições, esquecendo-se que 90% da área ardida resultam de 1% das ignições e ocorre em menos de 15 dias no ano.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.