O Centro Português 1.º de Dezembro assinalou o seu centenário com uma programação alargada, realizada entre os dias 22 e 25 de janeiro, em Pelotas, no sul do Brasil, reforçando a ligação histórica da instituição à comunidade luso-descendente e à vida cultural local. As comemorações marcaram os 100 anos da entidade, fundada em 1926, com iniciativas abertas ao público, de caráter cultural, institucional, social e religioso.
A programação teve início dia 22 de janeiro, com a apresentação do coral no Mercado Público de Pelotas, ao final da tarde. No dia seguinte, 23 de janeiro, realizou-se uma audiência pública na Câmara de Vereadores, dedicada à comemoração do centenário, reunindo representantes institucionais e membros da comunidade, num ato de reconhecimento do papel histórico do Centro Português 1.º de Dezembro no município. O ponto alto das celebrações ocorreu dia 24 de janeiro, com o jantar comemorativo dos 100 anos do Clube e dos 40 anos do Rancho Folclórico, realizado na sede campestre da instituição. A noite contou com a apresentação do grupo Alma Lusitana, quando foram também assinaladas quatro décadas de preservação e difusão do folclore português nessa região brasileira. As comemorações encerraram no dia 25 de janeiro, com a missa de celebração na Capela Nossa Senhora de Fátima.
Em entrevista à nossa reportagem, Eduardo Gil da Silva Carreira, presidente do Conselho de Administração do Centro Português 1ª de Dezembro, explicou o trabalho realizado pela entidade que conta com cerca de quatro mil associados, as atividades existentes, as motivações e sublinhou o papel da instituição na manutenção da cultura portuguesa no Rio Grande do Sul.
Quais os vossos objetivos?
O Clube destaca-se por promover eventos cívicos, religiosos e sociais, além de expandir a sua infraestrutura cultural e desportiva, com um ambiente familiar e acolhedor. As principais finalidades estatutárias do Centro são promover, por meio de reuniões sociais, culturais e desportivas, o estreitamento dos laços de amizade, harmonia e fraternidade entre todos os cidadãos, especialmente os de nacionalidade brasileira e portuguesa; comemorar, o mais solenemente possível, as datas de 10 de junho – Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas; 07 de setembro – Proclamação da Independência do Brasil, 1º de dezembro – Restauração da Independência de Portugal. Assim como, festejar, condignamente, as datas de 24 de janeiro – Fundação do Centro Português 1° de Dezembro e do Rancho Folclórico, 22 de abril – Dia da Luso-Brasilidade e do Coral. Ademais, preservar, cultivar e divulgar a cultura portuguesa, as suas tradições e costumes, desenvolvendo e proporcionando aos associados e aos seus dependentes, atividades sociais, culturais e recreativas, bem como a administração dos desportos em caráter amadorista, a sua pesquisa, ensino e prática.
Em que datas foram fundados? E em que contexto?
O Centro Português 1º de Dezembro, fundado em Pelotas em 24 de janeiro de 1926, surgiu da união do Congresso Português (monarquia) e do Grémio Republicano Português para preservar a cultura lusitana e integrar imigrantes e descendentes, aproximando o Brasil de Portugal. Após a Proclamação da República em 5 de outubro de 1910, os defensores da monarquia ficaram enfraquecidos, sendo que, após longa discussão, fora decidido pela fundação do Centro Português (dois extremos – monarquistas e republicanos, se encontram no Centro). A sua criação simbolizou a união da comunidade portuguesa na cidade, integrando diferentes correntes de pensamento em torno de um objetivo comum: preservar a cultura lusitana, integrar imigrantes e descendentes e servir como uma ponte viva entre o Brasil e Portugal.
Que ações desenvolvem?
São desenvolvidas uma diversidade de ações que vão além da comunidade lusitana, servindo à cidade de Pelotas. As comemorações cívicas são realizadas por meio de atividades culturais, sociais e recreativas. Um projeto de grande relevância foi a recuperação de uma das poucas Casas de Charqueada remanescentes às margens do Arroio Pelotas, no Recanto de Portugal, com aporte de recurso do Governo Português, resgatando a herança arquitetónica e histórica da cidade, diretamente ligada ao ciclo do charque e à contribuição dos imigrantes portugueses para o desenvolvimento regional. O apoio institucional da Direção Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, demonstra o reconhecimento público e histórico do trabalho desenvolvido. O Clube acolhe o maior e melhor Campeonato de FUT7 em gramado natural entre associados de clubes sociais, com cerca de 600 atletas. Também temos o Coral e o Rancho Folclórico do Clube, sendo este completando 40 anos de história.
Quais as expetativas pelas celebrações dos 100 anos?
A expetativa é divulgar ainda mais a história do Clube e cultura lusitana, recebendo associados, convidados e autoridades na celebração. As festividades começaram em 22 de janeiro com a apresentação do Coral no Mercado Público, dia 23 de janeiro a Audiência Pública na Câmara de Vereadores, dia 24 de janeiro o Jantar de Celebração dos 100 anos com a apresentação do Grupo de Fado Alma Lusitana e homenagens, com o descerramento da placa de denominação da Sede Fernando Teixeira Brites.
Qual a importância da entidade para a comunidade local, não só a portuguesa?
O Centro Português 1º de Dezembro é um património cultural e social de toda Pelotas. Para a comunidade local, muito além da colónia portuguesa, a entidade atua como um guardião da história lusitana e da cidade, visível no projeto de restauro da Casa de Charqueada, que resgata a memória arquitetónica e económica da região. É também um ponto de encontro e convivência familiar, oferecendo infraestrutura esportiva, cultural e de lazer no Recanto de Portugal. Através dos seus festivais gastronómicos – Festival do Bacalhau e Queijos e Vinhos, apresentações do Coral e do Rancho Folclórico, e celebrações abertas ao público, o Clube enriquece a vida cultural pelotense, disseminando tradições e promovendo a integração. Assim, cumpre uma duplicidade de funções, preservando uma herança específica e a compartilha com toda a comunidade, servindo como uma ponte viva entre passado e presente, e entre as culturas brasileira e portuguesa.
Que momentos fundadores marcaram a criação do clube em Pelotas e de que forma essa história acompanha o percurso da imigração portuguesa na cidade ao longo de um século? Que pontos ou momentos pode destacar?
O Centro Português nasce da fusão de outras duas instituições, até então com pensamentos diversos. Contudo, para a congregação da comunidade portuguesa há a união dos fundadores. Os imigrantes portugueses encontram desde sempre a alegria e acolhida em nosso Clube. A preservação da cultura da Pátria Mãe passa também por nosso Rancho Folclórico, que ora também aniversaria – 40 anos! O Coral também faz parte das manifestações culturais do Clube, somado ao nosso Museu Manuela Aguiar, as festividades religiosas – 13 de Maio – Nossa Senhora de Fátima e Festa do Divino Espírito Santo (Pentecostes).
A sede campestre, localizada na Rua Cidade de Faro, assume hoje um papel central na vida associativa. Qual a importância simbólica e funcional deste espaço para a comunidade portuguesa local e para a relação do clube com a cidade de Pelotas?
A Sede Campestre, na Rua Cidade de Faro, é o coração administrativo e funcional do Clube. Simbolicamente, representa a permanência e o enraizamento da cultura portuguesa em Pelotas, um espaço próprio de convivência e celebração, que abriga a Sala de Honra, a Sala do Rancho, a Biblioteca e o Museu do Clube. Funcionalmente, é onde ocorre vida associativa, onde famílias se reúnem para atividades desportivas, festivais gastronómicos, eventos sociais e celebrações cívicas. Há o espaço das piscinas – aberta e térmica, academia, quadra polidesportiva, duas quadras de tênis, pádel e logo teremos de beach ténis. Existem ainda as quadras de bocha e malha, transcendendo o clube para se tornar um ponto de convívio das famílias, fortalecendo os laços entre as culturas e integrando a herança lusitana ao cotidiano local.
Ao longo do ano do centenário, o clube promove iniciativas culturais, institucionais e religiosas, como apresentações corais, audiências públicas, eventos gastronómicos e celebrações litúrgicas. Como estas atividades ajudam a preservar a identidade portuguesa e a envolver novas gerações?
As iniciativas e programação das Festividades do Centenário promovem a perpetuação da cultura lusitana e divulgação da nossa identidade. Eventos como as apresentações do Coral e Rancho Folclórico, e as celebrações religiosas, os festivais gastronómicos, os Atos Cívicos e as festas sociais são a transmissão direta da memória, conectando as novas gerações aos símbolos, sons e espiritualidade que remetem à Portugal. Simultaneamente, as atividades desportivas e a participação representativa do Clube nos eventos da cidade e regionais criam uma ponte com o presente, demonstrando que a cultura portuguesa é viva, relevante e parte do tecido social contemporâneo de Pelotas. Ao oferecer essa combinação de profundidade histórica e vivência prazerosa, transformamos a herança numa experiência atrativa e significativa, convidando os jovens não apenas a observar, mas a se apropriar e dar continuidade a este legado.
O rancho folclórico, que celebra quatro décadas de atividade, é um dos pilares culturais da instituição. Que papel desempenha na valorização da cultura popular portuguesa no sul do Brasil e na caracterização da comunidade lusodescendente da região?
O Rancho Folclórico, com as suas quatro décadas, carrega uma vibrante história do Clube. Além da preservação, o Rancho materializa e celebra a cultura popular portuguesa no sul do Brasil, por meio da representação artísticas das regiões de Portugal. Através das danças, músicas e trajes típicos como o Minho e o Algarve, traduz a herança imaterial em espetáculo, tornando-a acessível e emocionante para toda a comunidade. Para o público pelotense encanta, despertando interesse e respeito pelas tradições lusas. Para os lusodescendentes, é um pilar identitário. Ao participar, os jovens vivem a cultura de seus antepassados, internalizando-a não como algo distante, mas como parte ativa de quem são. Assim, o Rancho não apenas valoriza o passado, mas representa a etnia de forma moderna, garantindo que a sua expressão cultural continue viva e relevante.
Como avalia a comunidade portuguesa em Pelotas e na região de influência do Centro?
Tenho que a comunidade portuguesa em Pelotas e região é vibrante e perfeitamente integrada, que transcende a mera preservação do passado. Hoje, caracteriza-se menos por um fluxo contínuo de imigrantes e mais por uma forte identidade lusodescendente, mantida através de gerações e na busca da cidadania portuguesa. Essa comunidade foi o alicerce social do Centro, participando ativamente e sustentando as suas tradições. No entanto, a maior força é a integração harmoniosa entre os associados. Por meio da participação desportiva, empresarial e cívica, os lusodescendentes enriqueceram profundamente o tecido cultural e económico local. O Clube, portanto, não atua como um reduto isolado, mas como catalisador que nutre essa identidade dual, permitindo que se orgulhem de suas raízes enquanto contribuem plenamente para o progresso da região.
Qual a vossa estrutura atual, que valências existem?
Operamos em duas sedes físicas. A Sede Campestre, na Rua Cidade de Faro, que é a sede administrativa, funcionando todos os dias da semana como espaço central para convívio e eventos. A Sede Anibal Vidal, na Rua Cidade de Aveiro, também recebe atividades e onde estão localizadas a Capela de Nossa Senhora de Fátima e o Centro Cultural Cidade de Aveiro (Casa de Charqueada). Ambas oferecem uma infraestrutura que suporta a nossa programação cultural, social e administrativa, sendo pontos de encontro para a comunidade, em especial a beira no Arroio Pelotas (Sede Anibal Vidal).
Que sentimento tem ao liderar o Centro no seu centenário e qual o futuro da entidade, num momento em que se discute o trabalho do movimento associativo e a sua sustentabilidade?
É uma honra e uma grande responsabilidade liderar a instituição no seu Centenário. A Gestão é composta pelo Conselho de Administração, Conselho Deliberativo, Conselho Fiscal, Diretoria Executiva e Colaboradores, que em conjunto mantém as nossas atividades. Este marco não é apenas sobre olhar para uma história de 100 anos de contribuições, mas também sobre projetar o futuro. Trabalhamos para garantir a sustentabilidade do movimento associativo, atendendo os nossos associados e ofertando outras oportunidades de convivência familiar dentro da nossa estrutura. Ainda, adaptando-nos aos novos tempos sem perder a nossa essência, pois o futuro do Clube reside em continuar sendo uma casa portuguesa com certeza, acolhendo a todos e que honra o seu passado, celebra o presente e cultiva as raízes luso-brasileiras para as próximas gerações!
Por fim, quem é Eduardo Gil da Silva Carreira?
Tenho 50 anos, sou advogado, presidente do Conselho de Administração do Centro Português 1ª de Dezembro, localizado na cidade de Pelotas-RS, com três sedes – a Sede Campestre, na Rua Cidade de Faro, 238 que passará a ser denominada Sede Fernando Teixeira Brites (presidente que idealizou construção), a Sede Anibal Vidal, na Rua Cidade de Aveiro, 500, ambas no bairro Recanto de Portugal; e a Sede Centro que ora está locada para terceiros. Contudo, participam no Conselho de Administração do Centro a vice-presidente Cultural, Regina Lucia Fiss, a vice-presidente Social e de Marketing, Mariza Ferreira, o vice-presidente Administrativo, Marlon Porto, e o vice-presidente Desportivo, Osvaldo Pilotto.
O artigo foi publicado originalmente em Gazeta Rural.