Chuva abundante enche albufeiras: armazenamento atinge os 92% e quase todas as bacias superam média histórica

Níveis das barragens em Portugal em Março
Barragens registaram aumento nos níveis de armazenamento durante o mês de março, após as depressões Jana, Konrad, Laurence e Martinho.

As chuvas persistentes de março mudaram drasticamente o panorama hídrico de Portugal continental. De acordo com os dados atualizados pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e pelo Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH), o volume total de armazenamento nas albufeiras nacionais atingiu, a 24 de março, os 12.165 hm³, correspondendo a 92% da capacidade total das 81 albufeiras públicas monitorizadas.

O impacte das depressões Jana, Konrad, Laurence e Martinho foi determinante para este cenário, que resultou num aumento de 871 hm³ no armazenamento em apenas duas semanas. Este crescimento coloca 83% das albufeiras acima dos 80% da sua capacidade máxima, com 12 já a atingir o limite.

Abundância hídrica e gestão de albufeiras em Portugal

O boletim da APA indica que, comparando com os registos médios de março entre 1990/91 e 2023/24, apenas três bacias hidrográficas apresentam valores de armazenamento abaixo da média: Ave, Mira e Ribeiras do Barlavento. Todas as restantes registam volumes superiores à média histórica para o mês.

As bacias do Vouga, Tejo e Guadiana destacam-se pelo volume acumulado. No Vouga, o armazenamento chega aos 99%, e nas bacias do Tejo e Guadiana atinge os 97%, com várias barragens completamente cheias. No caso do Tejo, as descargas foram inevitáveis, com volumes superiores a mil m³/s registados, como na barragem de Pedrógão, que começou a descarregar o excesso de água dois dias antes do balanço.

92% de armazenamento albufeiras Portugal
O volume total de armazenamento nas albufeiras nacionais atingiu, a 24 de março, 92% da capacidade total. Fonte: Boletim Semanal das Albufeiras, SNIRH.

O maior lago artificial da Europa, a albufeira de Alqueva, está a apenas 19 centímetros do pleno armazenamento, situando-se atualmente nos 97% da capacidade. Só na última semana, esta albufeira registou uma subida de 236,5 hm³. A EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva – continua a gerir cuidadosamente as descargas através das centrais hidroelétricas, mas admite a possibilidade de abertura de órgãos de segurança, caso o mercado elétrico não absorva toda a energia gerada.

A precipitação ajuda a reduzir a pressão hídrica em áreas historicamente críticas

No Algarve, região historicamente mais crítica em termos de armazenamento, também se verificaram melhorias significativas. A barragem de Arade subiu de 17% para 59%, e Bravura de 14% para 56%. A única exceção continua a ser Monte da Rocha, na bacia do Sado, que embora tenha subido dos 13% registados no final de janeiro para os atuais 37%, permanece como a única albufeira nacional com menos de 50% da capacidade.

Além das albufeiras em situação crítica, outras mantêm-se em níveis intermédios.

Entre os 50% e os 80% destacam-se Alto Lindoso (79%) e Touvedo (74%) na bacia do Lima; Alto Rabagão (78%) e Caniçada (77%) na bacia do Cávado; Guilhofrei (72%) no Ave; Fagilde (57%) no Mondego; e, no Tejo, as albufeiras de Minutos (61%), Póvoa (sem valor percentual exato) e Meimoa (80%).

No Sado, a albufeira do Roxo encontra-se a 76%, enquanto Campilhas atinge os 58%. Já Santa Clara, na bacia do Mira, regista 57%. Estas subidas refletem a generalizada saturação dos solos de norte a sul do país, com a água a escorrer diretamente para os cursos de água e, por sua vez, para os reservatórios.

Apesar dos impactes positivos para o armazenamento, os agricultores alertam para os desafios que se avizinham. A elevada humidade pode comprometer a preparação dos terrenos para novas plantações e favorecer o aparecimento de doenças fúngicas, especialmente em culturas sensíveis como o olival intensivo.

Com o país praticamente coberto a azul no mapa hidrológico nacional, os especialistas apontam para a necessidade de manter a vigilância. A gestão equilibrada dos recursos hídricos e o acompanhamento da evolução meteorológica nas próximas semanas serão determinantes para consolidar esta recuperação hídrica e prevenir riscos associados às descargas, à erosão dos solos e à saturação dos sistemas de drenagem urbanos.

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