Cinco lições de uma crise, à beira do Mondego

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No essencial, há cinco lições que não podemos ignorar depois do que vivemos aqui, junto ao Mondego (e em outros pontos do país, como a fustigada região de Leiria), sob ventos e inundações que arrancaram telhados, arruinaram casas e fábricas, cortaram estradas e, tragicamente, tiraram vidas. Crises como esta não são apenas episódios meteorológicos extremos; são testes à capacidade do poder público – a nível local, regional (se existisse, como devia), nacional e europeu – de antecipar, responder e aprender.

A primeira lição é simples, mas teimosamente esquecida: a gestão pública tem de ser desenhada para lidar com o inesperado. Estratégias, planos de ação e recursos – humanos e financeiros – devem prever cenários alternativos e acomodar custos não-antecipados. Isso implica resistir à tentação de esvaziar as “almofadas financeiras” para ganhos eleitorais imediatos, como vimos acontecer há pouco tempo em Portugal. Governar é preparar, não apenas reagir.

A segunda lição, ligada à anterior, é estrutural: instituições como a APA ou o LNEC só conseguem responder eficazmente em momentos de crise, se tiverem sido previamente dotadas de meios, conhecimento e capacidade técnica. Não se improvisa, nem se inventa competência no dia em que vem a inundação ou a seca, o incêndio ou a epidemia. Investir antes é a única forma de garantir resposta depois.

A terceira lição é a necessidade de coordenação real entre níveis de governo. Em situações de crise, não há espaço para fronteiras administrativas rígidas, nem para competências espartilhadas que atrasam decisões. As respostas têm de ser integradas e sem silos. O que importa é mobilizar quem tem os melhores meios para agir – seja o município, o governo da República ou as instituições europeias- e entregar a liderança a quem está mais bem preparado para assumir o comando. Crises como esta exigem uma combinação de comando e controlo com trabalho em rede, não organigramas estanques.

A quarta lição é a importância decisiva dos dados. Bons dados salvam vidas e evitam danos maiores. A pandemia já tinha exposto esta fragilidade: não tínhamos dados de saúde integrados, fiáveis e comparáveis, nem a nível nacional, nem europeu. Foi preciso correr atrás deles e harmonizar critérios.

No caso do Mondego, a diferença fez-se sentir. Foram os dados da APA e da EDP – e os modelos construídos sobre eles – que permitiram controlar, com enorme rigor, o caudal do rio e evitar estragos muito maiores. O presidente da APA explicou-o de forma clara: baixou-se preventivamente o nível da barragem da Aguieira, aumentando a capacidade de encaixe, e regulou-se depois esse limite com precisão milimétrica. A ciência e os dados não são acessórios; são uma infraestrutura de proteção civil.

A quinta lição é que nenhuma estratégia nacional ou europeia funciona sem conhecimento local. As crises revelam sempre a importância das autarquias, das comunidades e das instituições que conhecem o terreno – literalmente – melhor do que qualquer gabinete central. São elas que sabem onde a água passa, onde o vento bate, onde está a população mais vulnerável que precisa de sair de casa antes dos outros. E são elas que chegam primeiro, muitas vezes antes de qualquer coordenação formal.

Isto exige reforçar a capacidade técnica e operacional dos municípios e reconhecer que a participação das comunidades – bombeiros, associações, agricultores, vizinhos organizados – não é um complemento, mas uma parte essencial da resiliência territorial. Sem esta proximidade, a resposta é sempre mais lenta, mais cara e menos eficaz.

Crises como esta não são apenas tragédias, são diagnósticos. Mostram o que funciona, o que falha e o que precisa de ser reconstruído. Ignorar estas e outras lições seria desperdiçar a oportunidade – e repetir o erro – quando chegar a próxima tempestade. Infelizmente, pode não demorar muito tempo.

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