
No post anterior falei de efeitos concretos da carga fiscal, isto é, da forma como o Estado cobra às pessoas uma comissão para se financiar.
Mais que a discussão sobre se imposto é roubo ou é a propriedade que é roubo (discussão frequentemente pueril), interessa-me discutir a eficiência relativa das pessoas ou do Estado na aplicação dos recursos a que têm acesso (ou porque os produzem, ou porque cobram comissões sobre a riqueza que outros produzem ou porque roubam, seja qual for a forma de aceder aos recursos).
E interessa-me sobretudo o concreto nessa discussão, razão pela qual vou usar um exemplo de áreas que conheço melhor.
Escolho uma notícia, poderia escolher muitas outras semelhantes.
Não escolho as notícias sobre o financiamento do galinheiro de linces que há ali para Silves, em que não se fala de dinheiro, porque é fácil perceber que, neste momento, não há utilidade social nenhuma em andar a produzir linces de aviário quando nascem às dezenas na natureza, sem custo nenhum para o contribuinte (ou, neste caso, o consumidor de água).
Prefiro falar de gestão de fogo.
Neste caso há uma ideia congratulatória com o facto de se ter gasto meio milhão de euros a intervir em 130 hectares, ou seja mais de três mil e oitocentos euros por hectare. É apenas um exemplo, há dezenas de exemplos destes, quer sob o nome de condomínio de aldeia, quer faixas de gestão de combustível, quer plantações, enfim, os nomes são muitos, o resultado é sempre o mesmo: gastar uma pipa de massa num processo que não se sabe como vai funcionar nos dez anos seguintes.
Um pastor com 150 cabras consegue interver em 100 hectares, um resineiro consegue intervir em qualquer lado em que haja pinheiros com boas produtividades para resina, um fogo controlado faz-se com menos de 200 euros por hectare, a Montis intervém em 300 hectares com um orçamento anual de 130 mil euros (e não é a única).
Dir-se-á que são intervenções pontuais, não estratégicas, ao contrário destes condomínios de aldeia ou faixas de gestão de combustível.
Sim, é verdade, mas qual é a eficácia das faixas de gestão de combustível, onde o PRR enterra uns largos milhões (só neste caso, 120 milhões cujo único beneficiário é o Estado, mas são mais, muitos mais milhões)?
Os estudos que existem e que fazem a avaliação que permite responder a esta pergunta são claríssimos: quase nula.
Daí a pergunta: por que razão se cobram impostos às actividades que gerem combustíveis para aplicar esses recursos em políticas estatais ineficazes?
E por que razão se mantêm políticas reconhecidamente ineficazes?
Ao jornalismo político ficaria bem andar à procura de respostas para coisas destas, em vez de andar a reproduzir declarações tontas de políticos, como “eles têm Ana Paula Martins, nós temos Fernando Araújo”, declaração infantil sem qualquer interesse fora da bolha político-mediática, que é muito mais fácil de encontrar num jornal que qualquer discussão razoável sobre a eficácia das medidas de política no sector da saúde.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.