Depois do Pedrógão… a multiplicação do Pedrógão

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Das calamidade de 2017 até hoje (maxime este Agosto), assistimos a algumas ocorrências curiosas: o poder legislativo resolveu ser actuante e, vai daí, legislou sobre o cadastro predial (como também sobre as piriscas deitadas ao chão nas ruas da cidade…), a limpeza dos solos florestais e das bermas das estradas e proximidades das casas e embrenhou-se na burocratização do sistema de Protecção Civil (é só ouvir o que os bombeiros dizem dos «senhores da boina preta»).

Ou seja, fez coisa nenhuma. Ontem, em Pedrógão Grande, os matos estava mais viçosos, as bermas verdejantes, as casas tinham o fogo à porta, as populações – houve, felizmente, tempo de evacuar quem quisesse – de baldes e mangueiras resignadas, esperando a repetição do filme. Dali à Sertã, o fogo tinha o espaço todo por sua conta.

Dos anteriores incêndios mais não haverá a acrescentar. Apenas a frisar a sua extensão, a imensidão de incêndios começados num distrito, cavalgando mais dois ou três e ainda activos.

Também o poder executivo nada fez. Nem o socialista, com Costa a preparar demoradas malas para a Europa que ambicionava, nem o social-democrata, durante meses acossado pela “caso Spinumviva” e por uma série de gaffes ministeriais cometidas. Ou seja, por muito combustível para discussões políticas já na rentrée visando as eleições autarquicas que não estão longe. A República é assim…

… é assim e não quer admitir que a situação não dispõe de muitas soluções. O Interior do País está entregue às silvas e ao bravio, os poucos que lá vivem – umas tantas martirizadas aldeias – não logram forças para se defenderem eficaz e definitivamente. É o seu destino – a angústia vivida todos os verões. Assim como todos continuam a pisar a pirisca no cimento do passeio, ninguém vai limpar o hectarzito de pinhal que herdou já não sabe bem aonde. (Falo de leis inócuas, a especialidade parlamentar nossa.)

Tudo talvez não fosse tão complicado se não se verificassem dois factores: o primeiro – a maioria dos incêndios continua a ter mão humana, negligente ou intencional; o segundo – o clima mudou, as vagas de calor prolongam-se e um sinistro vento se encarrega de levar o fogo daqui para muitos quilómetros além (de resto, muito facilitando a vida aos incendiários).

Se o Poder político quisesse ser realmente actuante, rapava o País privado à escovinha e actuava com rigor nas matas nacionais e nos baldios. Invertia o ónus: quem se sentisse lesado pelo abate das suas árvores, que fizesse prova de propriedade e pedissse o ressarcimento das suas perdas. Se, ao menos, ainda dispusesse de alguma vontadinha, minimizava riscos, apostando na prevenção in loco: assim que a meteorologia tocasse os sinos a rebate, a guarda a cavalo, a pé ou motorizada em lugares considerados mais susceptíveis, e os carros de bombeiros também. É que todos os dias ouvimos –  a rapidez da actuação é fundamental.

Mas não. Se de 2017 para cá tudo está na mesma, porque se mudará agora?

O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.


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