Em campanha num “cenário apocalíptico”, Ventura diz “que se lixem as eleições”

Fábio Franco, 37 anos, agricultor de Ortigosa, no concelho de Leiria. A tempestade Kristin, que na madrugada de quarta-feira deixou o centro do país virado do avesso, destruiu os hectares de estufas de alface de que é proprietário. Depois de já ter reconstruído a exploração duas vezes — uma das quais após o furacão Leslie, em 2018 —​, não sabe se, desta vez, será possível reerguê-la. Neste sábado, mostrou a André Ventura o rastro de destruição deixado pela intempérie no seu negócio, na Sociedade Agrícola do Vale do Lis.

Depois de ter recebido o candidato presidencial na quinta-feira — quando este visitou Leiria, e onde o alertou de que a situação nas zonas rurais era pior do que no centro da cidade —, Fábio Franco voltou a recebê-lo, agora na sua exploração agrícola.

“Escaldado” pelo furacão Leslie — que arrasou a zona e destruiu a sua exploração —, Fábio Franco tinha reforçado a estrutura das estufas na reconstrução. Mas não foi suficiente para travar a tempestade Kristin. Para o agricultor, a perda foi total — 150 toneladas de alface perdidas; a cobertura em farrapos; a estrutura destruída.

A reconstrução terá de ser integral e não sabe se a conseguirá pôr em marcha. “Esta [reconstrução] não sei se a vou conseguir fazer”, disse. “Quanto tempo vai demorar? Existem empresas capazes [de fazer a reconstrução]? Quanto é que vai custar?”, questionava o agricultor, sinalizando que não sabe como vai fazer os pagamentos aos seus funcionários.

Uns metros ao lado, a mãe, em lágrimas, lamentava: “Não sei se o meu filho vai conseguir”. Entre pedidos de ajuda, Albertina, que sempre gostou do campo, contava que o filho “sempre trabalhou com gosto”.

D. Albertina, mãe de Fábio Franco

Mostrando a Ventura as estufas e as alfaces, ainda plantadas, mas com as folhas queimadas pelo vento, Fábio Franco desabafou: “Não sei o que é que vai ser do nosso sector”. Para começar, é preciso retirar os escombros, mas é perigoso. Seguir-se-á a reconstrução, mas demorará tempo e há o risco de as cadeias de fornecimento se alterarem. A produção do agricultor estava em “qualquer supermercado do país” e talvez esta semana ainda se comam “alfaces produzidas em Leiria”. Depois, “é fácil ter as toneladas de produção que eu perdi vindas de Espanha ou Marrocos”, disse.

“Que se lixem as eleições”

Em declarações aos jornalistas, o também líder do Chega descreveu a zona em redor da cidade de Leiria como um “cenário apocalíptico” e insistiu que é preciso “mostrar ao país” o que está a acontecer na zona centro.

Num dia em que o presidente da Câmara de Leiria atirou ao “carrossel de pessoas a vir a Leiria como se de um jardim zoológico se tratasse” e disse achar “ridículo quando alguém quer oferecer meia dúzia de garrafas de água e se filma para trazer numa carrinhazinha pequenina a ajuda ao distrito”, André Ventura desviou-se das criticas de aproveitamento político da tragédia, mas sem as contradizer.

Sobre as declarações do autarca de Leiria, o presidente do Chega – que, na véspera, organizou recolhas de mantimentos para as populações afectadas pela tempestade e convocou a comunicação social – disse não querer “entrar em picardias políticas”. “Compreendo que alguns critiquem, que não gostem. Eu vou continuar a mobilizar as pessoas para recolher bens essenciais. (…) Tenho talvez a certeza que não são os bens que recolhemos que vão resolver os problemas, mas damos um sinal ao país” de que o que interessa é “ajudar”, justificou.

Tempestade Kristin destruiu várias explorações agrícolas

O momento não é para “picardias”, mas não faltou uma alfinetada à ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral. “Quando se ouve a sr. ministra da Administração Interna é uma dor no coração (…) parece que não vê o que está a acontecer, diz que agora é tempo para uma aprendizagem colectiva. Estas pessoas não precisam de aprendizagens, precisam de apoio rápido, de acção”, atirou.

Questionado sobre se reconhece que as visitas que tem feito aos locais afectados pela depressão Kristin – acompanhado por jornalistas – acabam por beneficiar a sua campanha presidencial, respondeu: “Eu não vou entrar nisso, que se lixem as eleições, todas elas”.”Haverá sempre quem ache que o melhor é não fazer nada. O que nós mais temos no nosso país são políticos que acham que ficar sentados e quietos é o normal. Eu não sou assim”, acrescentou.

Antes, já tinha defendido: “Acho que é importante que um político que está numas eleições com esta visibilidade a nível nacional, neste momento em que estamos a enfrentar condições provavelmente nunca vistas e que, provavelmente vamos enfrentar novamente esta noite e amanhã, agora é que é mesmo a expressão – que se lixem as eleições”.

Ainda assim, a caravana de André Ventura segue na estrada e, depois de durante a tarde ter estado em contacto com autarcas para coordenar a entrega de bens e donativos recolhidos pela sua comitiva, esta noite estará numa conferência organizada pelo Clube dos Pensadores, em Gaia.

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