Espanhóis destacam aldeia portuguesa quase abandonada que inspirou um quadro bíblico e que esconde um desfiladeiro de águas cristalinas

image
Share this…

Uma pequena aldeia da Serra da Lousã, no centro de Portugal, está a despertar atenção além-fronteiras pela sua história invulgar e pela paisagem que a rodeia. Trata-se de Casal de São Simão, no concelho de Figueiró dos Vinhos, uma localidade que chegou a ficar praticamente abandonada e que hoje se destaca pela recuperação do seu património e pelo desfiladeiro de águas cristalinas nas proximidades. De acordo com a revista espanhola Viajes, este pequeno núcleo serrano inspirou até um quadro bíblico do pintor naturalista José Malhoa.

A aldeia encontra-se numa encosta rodeada por montanhas e desenvolve-se ao longo de uma pequena lomba até ao ponto em que o relevo impede qualquer expansão. O resultado é um conjunto muito reduzido de habitações, pouco mais de duas dezenas, que preservam a arquitetura tradicional das aldeias serranas.

Segundo a publicação, a localização afastada dos principais eixos urbanos ajudou a manter o carácter original do lugar. Apesar de ficar a cerca de 40 quilómetros de Coimbra, a aldeia continua marcada pela tranquilidade e pelo ritmo lento da vida rural.

Uma aldeia quase perdida que voltou a ganhar vida

Tal como muitas localidades do interior português, Casal de São Simão sofreu durante décadas com o despovoamento. Casas abandonadas e edifícios em ruínas tornaram-se parte da paisagem até que alguns antigos moradores decidiram regressar.

De acordo com a revista, um dos primeiros a recuperar uma habitação foi António Quinta, que transformou uma antiga casa em refúgio e incentivou amigos e conhecidos a fazer o mesmo.

Segundo a mesma fonte, esse movimento acabou por dar origem à associação Refúgios de Pedra, criada para promover a recuperação da aldeia e preservar o seu património natural e cultural.

A iniciativa abriu caminho à integração da aldeia na rede das Aldeias do Xisto, um projeto que promove o turismo sustentável em várias localidades históricas da região centro.

Uma particularidade que a distingue das outras aldeias

Apesar de integrar esta rede, Casal de São Simão apresenta uma característica que a torna única. De acordo com a mesma fonte, é a única aldeia das Aldeias do Xisto construída predominantemente em quartzito.

Esta diferença nota-se na tonalidade das casas, que apresentam cores claras e douradas, contrastando com o cinzento mais escuro típico das construções em xisto.

Portas baixas, escadas exteriores em pedra, pequenos pátios e uma fonte onde a água corre continuamente fazem parte do cenário urbano da aldeia.

Segundo explica o site, a recuperação do lugar incluiu também a criação de um espaço multifuncional que funciona como restaurante, loja e ponto de encontro para visitantes, conhecido como Varanda do Casal, em funcionamento desde 2009.

A ermida que confirma a origem medieval

Logo à entrada da aldeia encontra-se um dos seus elementos históricos mais importantes. Trata-se da Ermida de São Simão, um templo religioso cuja origem remonta ao século XV. De acordo com a revista Viajes, uma inscrição gótica existente na ermida confirma que a aldeia já existia durante a Idade Média.

O edifício está dedicado a São Simão e a São Judas Tadeu e é considerado o templo religioso mais antigo do concelho de Figueiró dos Vinhos. Nas imediações encontram-se ainda vestígios da vida comunitária tradicional, como a eira, o antigo forno comunitário e pequenos socalcos agrícolas que rodeiam a aldeia.

A ligação inesperada a um quadro bíblico

A história cultural da região está também ligada ao pintor naturalista José Malhoa. Segundo explica a revista Viajes, o artista visitou diversas vezes Figueiró dos Vinhos, onde acabou por construir a sua casa-estúdio, conhecida como Casulo de Malhoa. A paisagem da serra e os costumes locais inspiraram várias das suas obras.

De acordo com a mesma publicação, numa pintura concluída em 1904 e exposta na Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos, que representa o batismo de Cristo no rio Jordão, o pintor incluiu uma representação das Fragas de São Simão no fundo da cena. Dessa forma, o cenário natural da região acabou por surgir integrado numa representação bíblica.

Um desfiladeiro de águas cristalinas

A poucos quilómetros da aldeia encontram-se as Fragas de São Simão, um desfiladeiro considerado uma das paisagens naturais mais impressionantes da Serra da Lousã. Segundo a Viajes, o local é formado por imponentes escarpas de quartzito que se elevam quase na vertical ao longo de dezenas de metros.

Entre essas paredes rochosas corre a Ribeira de Alge, formando um vale estreito com águas transparentes. Uma das formas mais populares de conhecer este cenário é através do Passadiço das Fragas de São Simão, um percurso pedonal com cerca de 1,7 quilómetros.

De acordo com a mesma fonte, o trajeto liga a aldeia ao miradouro das fragas e passa também pela praia fluvial da região, distinguida com Bandeira Azul. O percurso atravessa escadas de madeira, antigos caminhos rurais e vários pontos de observação sobre o vale. A vegetação inclui carvalhos, sobreiros, medronheiros e castanheiros, enquanto nas zonas próximas da água é possível observar espécies como a garça-real e o guarda-rios.

Entre natureza, história e recuperação patrimonial, Casal de São Simão tornou-se hoje um exemplo curioso de revitalização do interior português, onde uma pequena aldeia quase abandonada acabou por ganhar nova vida.

Leia também: Mar está a invadir Portugal: saiba quantos metros recuou a costa durante o inverno

Continue a ler este artigo no Postal do Algarve.


Publicado

em

,

por

Etiquetas: