Esquecer as microempresas é um erro. O seu retorno pode ser tremendo

Every Government says they love small businesses, but what have they done for them? There are so many barriers, we should pull them all down.” – Jack Ma, empresário, investidor e filantropo chinês, presidente executivo do Grupo Alibaba e pioneiro da nova geração de grandes empresários chineses

Muita tinta tem corrido sobre a importância de aumentar a escala do tecido empresarial estimulando “as médias empresas a tornarem-se grandes”.  Com este objetivo longe de atingir os resultados esperados, temos uma alternativa clara para fortalecer a economia e que merece mais atenção: as pequenas empresas – e sobretudo as microempresas, onde já emergem segmentos como as chamadas “nanoempresas”. Muitos desdenham as microempresas como negócios amadores de “vão de escada”, sem capital e que fecham mais depressa do que abrem – mas não reparam que o peso, o crescimento e sobretudo o potencial das microempresas são o maior motor da economia de qualquer País. Não obstante, a atenção e apoio do Estado ou da Banca não estão à altura  e estas empresas sofrem de profundas adversidades. Hoje. quero tirar estas empresas do esquecimento partilhando a sua importância, a sua dinâmica própria e, como diz Jack Ma, a necessidade de muito maior apoio.

O setor é caracterizado pela sua imensidão, fragmentação e diversidade de modelos de negócio. Falamos de empresas com menos de 9 trabalhadores e/ou 2 milhões de euros e a maioria tem 1 a 3 trabalhadores e não faturam mais do que 200 ou 300 mil euros. Mas têm  uma importância incomparável na economia nacional. De acordo com dados de 2019, as 1,2 milhões de microempresas portuguesas representavam cerca de 96% do total de empresas nacionais, 40% do emprego empresarial total (1,8 milhões), 20 a 25% do VAB nacional e cerca de 20% do PIB, dos quais cerca de 30 % em serviços.

E há um dado muito importante: não obstante a elevada rotação, o crescimento global das microempresas está muito acima da média do tecido empresarial nacional: entre 2019 e 2023 o número de empresas cresceu a uma taxa média de 5%, no emprego a 5,6% e o volume de negócios a 3,2% – contra 1,9% a nível nacional.

Avaliar as melhores soluções para a sustentabilidade deste crescimento obriga a segmentar o universo atendendo a características e desafios próprios… mas há duas grandes tipologias em extremos opostos:

(1) as microempresas modernas, baseadas em modelos inovadores e competitivos nas quais a tecnologia e as competências e empenho dos fundadores são decisivos e (2) os negócios tradicionais de pequenos empresários e das suas famílias, montados sobre modelos onde a sobrevivência se faz dia a dia com uma oferta atrativa, com simpatia e sobretudo com suor, muito suor.

No primeiro segmento temos os futuros sucessos empresariais. Hoje, ainda são startups, umas tecnológicas outras não e, salvo raras exceções, passaram por esta fase não só os nossos seis unicórnios nacionais, como todos os grandes grupos nacionais de raiz familiar. Aqui,  impõe-se uma atenção especial, customizada, não chega ter um site com os formulários para aceder a incentivos. As incubadoras de startups têm sido um excelente suporte, mas é preciso que os agentes oficiais vão ter com elas. BFP? IAPMEI? CCDRs? Que se defina e se garantam recursos no terreno  para acompanhar cada empresa e garantir que estes empresários de alto potencial se sentem estimulados pelo Governo, Banca e Associações Empresariais a cumprir a sua ambição e serem os grandes empresários da próxima geração.

No segundo segmento a situação é mais complicada – fenómeno que está longe de ser português já que a realidade é a mesma por toda a UE. Dentre as categorias mais expressivas destacam-se o o comércio, os serviços pessoais e profissionais ou a agricultura familiar. A taxa de mortalidade é de 12% em Portugal vs 8% em média na UE, predominantemente do segundo segmento. Isto evidencia a incapacidade das microempresas, sobretudo as de caráter tradicional, em ultrapassar os múltiplos desafios estruturais com que lutam dia a dia …

  • a baixa produtividade derivada da falta de escala
  • a fragilidade financeira, com dívida elevada e dificuldade de acesso a crédito
  • a vulnerabilidade a choques de contexto externo
  • o fundador que arrasta a família para ajudar no negócio, esforçando os filhos ao ponto de os desmotivar para uma futura sucessão
  • a dependência do consumo doméstico, num raio de ação geográfico limitado
  • a permanente pressão de concorrentes maiores de rede, em particular category killers: M Force em oficinas auto ou A Padaria Portuguesa em cafés com refeições.

Marcado por empresas familiares, muitas em primeira geração, este segundo segmento é determinante na qualidade de vida de um bairro urbano ou na retenção de população em vilas e aldeias Há solução para este segundo segmento? Claro, basta olha à nossa volta. Produtos distintivos, value for money, serviço atencioso e personalizado, retenção de clientes e máxima captura do share of wallet. Uma mercearia na zona onde vivo está ao lado de um hiper Pingo Doce, é bem mais cara… e está sempre cheia. E para além disso criar um efeito de escala nestes subsetores :

  • ter uma redes/comunidads de apoio por setor para troca de experiências e estímulo de parcerias, a AHRESP é um bom exemplo
  • dinamizar um modelo de oferta de mentoria especializada (para ser económico, tem que ser em escala ) – o show de Ljubomir Stanisic onde orientava a recuperação de restaurantes ilustra este conceito
  • criar plataformas de formação e de negociação com fornecedores (como faz o modelo de cooperativa) mas estender para serviços básicos;
  • estimular boas práticas de gestão financeira que fortaleçam a relação de confiança com a Banca e a própria saúde do negócio.

Em conclusão – há trabalho a fazer no primeiro segmento, mas é às microempresas dos setores tradicionais, dominado por empresas familiares, que devemos boa parte da alma do País e a qualidade de vida no nosso bairro, vila ou aldeia. A sua contribuição para a economia nacional não tem paralelo. E por estas duas simples razões estas microempresas merecem muito maior atenção e não pode haver desculpas para que não tenham os apoios que merecem de quem pode e deve ajudar.

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