Esta casa em Leiria é “um animal que se esconde no meio da floresta”

Foi num regresso consciente às origens do campo e ao contacto com a natureza que nasceu o projecto da CC House, mais conhecida por Quinta dos Carvalhos, em Leiria. Desenvolvida ao longo de oito anos, esta casa fragmentada é uma tentativa de harmonia entre a convivência silenciosa e a paisagem evitando impor-se sobre ela.

Assinado pelo atelier Inception Architects Studio, o projecto é descrito por Pedro Carvalho, arquitecto responsável, como um equilíbrio entre uma linguagem contemporânea e o respeito absoluto pelo lugar. “Desde o início procurámos materiais que não ferissem o fundo da paisagem, mas que se integrassem com ela”, explica ao PÚBLICO.

Materiais como betão, madeira e zinco reflectem um cuidado de pensar na casa como um envolvente da natureza que a rodeia. Pedro compara-a muitas vezes a um animal que se esconde no meio da floresta”.

A relação com a envolvente foi uma premissa inegociável. Implantada num terreno marcado por carvalhos e sobreiros protegidos, a casa teve de se adaptar às árvores existentes e nunca o contrário. “Ferir as árvores nunca foi opção. Os edifícios tinham de se adaptar a isso”, sublinha o arquitecto. A própria forma da casa principal resulta dessa condição. Surge numa clareira natural e dobra-se sobre si mesma para acomodar um programa extenso sem tocar na vegetação.

O cliente teve um papel determinante em todo o processo. “Conhecia o terreno como ninguém”, descreve Pedro. Acrescenta que acompanhou de perto as decisões de implantação e que essa colaboração permitiu uma intervenção mínima, mas estratégica na vegetação. Ao longo dos anos, explica que algumas copas foram cuidadosamente guiadas para criar ligações visuais subtis entre edifícios.

Uma fragmentação estratégica

A casa organiza-se em quatro edifícios distintos: a garagem, o celeiro, a bell house e a black bird house. Ligados por um percurso único que acompanha a topografia existente, esta fragmentação responde tanto às características do terreno como ao modo de vida desejado pelo proprietário. “Ele queria usufruir da quinta segundo vários aspectos”, explica Pedro Carvalho, distinguindo claramente os momentos familiares, sociais e funcionais.

pool house, entendida como uma extensão social da casa principal, permite receber convidados sem invadir a esfera mais privada da habitação. É também neste edifício que surge a escultura de maçã Bull & Stein, de Bruno Jorge Monteiro e Silva. O arquitecto refere o desejo de “criar um momento de impacto e trazer urbanidade para o meio da natureza”.

A orientação dos edifícios teve em conta factores climáticos determinantes da região. Alpendres profundos protegem os interiores da incidência solar directa durante o verão, enquanto as coberturas inclinadas facilitam o escoamento da água da chuva e a queda natural das folhas no inverno. A ventilação cruzada e a relação directa entre interior e exterior foram pensadas desde a génese do projecto, privilegiando os espaços exteriores mais expostos ao sol.

Para o arquitecto, a maior aprendizagem do projecto passa por aceitar que o tempo da arquitectura nem sempre coincide com o tempo do cliente. Acredita que é precisamente dessa negociação que pode nascer uma obra mais consciente. Um retiro contemporâneo onde a arquitectura não domina a paisagem, mas aprende a coexistir com ela.

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