A presidente da Plataforma para o Crescimento Sustentável, Ivone Rocha, apresenta esta quinta-feira, 12 de março, o relatório “Alternativa Sustentável”, no âmbito do III Encontro Sustentável – “Alternativa Sustentável: Novos Valores, Novos Princípios”. O encontro reúne na Gulbenkian, em Lisboa, académicos, decisores políticos e especialistas para discutir novos caminhos para a sustentabilidade num contexto global marcado por crises ambientais, tecnológicas, económicas e geopolíticas.
O relatório parte de um diagnóstico claro: existe um desfasamento crescente — e potencialmente perigoso — entre aquilo que a ciência exige para enfrentar a crise climática e aquilo que as políticas públicas conseguem efetivamente entregar. Apesar de algum progresso nos últimos anos, o documento sublinha que o mundo continua “” em relação às metas climáticas, num momento em que a ciência aponta para reduções globais de emissões de cerca de 35% para limitar o aquecimento a 2°C e de 55% para 1,5°C até 2035.
No caso português, o relatório identifica dificuldades na transformação de compromissos e instrumentos estratégicos em resultados concretos. Embora existam políticas relevantes — como o Plano Nacional Energia e Clima, a Estratégia Nacional de Adaptação ou a Lei de Bases do Clima —, o documento considera que Portugal ainda não explorou plenamente ferramentas fundamentais, como o Roteiro para a Neutralidade Carbónica ou o Roteiro Nacional para a Adaptação.
O relatório alerta igualmente para riscos crescentes associados à vulnerabilidade climática do país, com impactos potenciais em setores estratégicos como o turismo e a agricultura, e identifica áreas críticas para a redução de emissões, nomeadamente transportes, energia, eficiência de recursos e agricultura.
Outro eixo central prende-se com a governação e o funcionamento das instituições, defendendo que o Estado e os sistemas de regulação não podem tornar-se obstáculos às soluções necessárias para a transição climática.
Entre os princípios conceptuais apresentados destaca-se o longotermismo — uma ética que propõe integrar o impacto das decisões atuais no futuro distante, reconhecendo que as escolhas do presente terão consequências profundas para as gerações futuras.
O III Encontro Sustentável conta ainda com intervenções de vários convidados, entre os quais Miguel Poiares Maduro, e encerra com uma intervenção de Jorge Moreira da Silva, fundador da Plataforma para o Crescimento Sustentável.
Em entrevista ao DN, Ivone Rocha analisa as principais conclusões do relatório “Alternativa Sustentável”.
O relatório refere que Portugal não explorou plenamente ferramentas como o Roteiro para a Neutralidade Carbónica ou o Roteiro Nacional para a Adaptação. Falta capacidade técnica? Falta decisão política ou coordenação institucional?
Quando referimos que não explorámos plenamente, referimo-nos a um problema específico. Temos alguma tendência para fazer planos em cima de planos e rever planos sem concluir os anteriores. Isto não decorre de incapacidade, mas do facto de fazermos políticas públicas assentes em ciclos políticos muito curtos. Foi por isso que a Plataforma decidiu lançar este debate com dois objetivos. Entendemos que devemos despartidarizar a mitigação e a adaptação às alterações climáticas e também a forma como lidamos com a inteligência artificial e com o impacto que ela terá nas nossas vidas. Vivemos num momento que, tanto quanto conheço da história, apresenta um nível de risco sem precedentes. Tivemos recentemente uma pandemia. Estamos em guerra, ou melhor, em guerras. Temos crises energéticas, apagões e catástrofes. Tudo isto tem efeitos na economia, na sociedade e no ambiente. Precisamos urgentemente de despartidarizar este debate para criar estruturas que possam ser implementadas em ciclos mais longos. Por muito boa que seja uma raiz, se estivermos sempre a arrancá-la, a árvore nunca cresce. E nós precisamos de que essa árvore cresça.
O relatório também refere que existe um desfasamento perigoso entre o que a ciência exige e aquilo que a política entrega. O que significa exatamente este diagnóstico?
A ciência demonstra que estamos numa rota que coloca perigosamente em causa o futuro da humanidade. Ela dá-nos dados e evidências claras de que precisamos acelerar a mudança. No entanto, devido aos ciclos políticos curtos e à excessiva partidarização destas matérias, estamos a criar movimentos em direções diferentes. Por isso é urgente consensualizar uma abordagem diferente e preparar um modelo novo. Temos de deixar de olhar para os assuntos em silos e de tentar apenas corrigir o passado. Precisamos construir algo novo para o futuro. Gosto de usar como metáfora um palácio do século XIX que hoje está a cair. É um edifício belíssimo, cheio de história e cultura, mas que já não tem condições de habitabilidade. Precisamos respeitar essa história, mas reestruturar profundamente esse palácio para o adaptar às necessidades atuais.
Metas climáticas: ainda há tempo? O relatório mostra que o mundo continua “off target” em relação às metas climáticas. Qual é hoje o maior entrave?
O maior entrave são os alicerces. O mundo mudou e mudou a uma velocidade nunca vista, sobretudo com a introdução da inteligência artificial. Precisamos de nos alicerçar naquilo que deve ser consensual e não pode mudar. Por isso lançámos quatro princípios que entendemos que devem ser os alicerces, aquilo que eu chamei de reestruturação do palácio. A sustentabilidade é o reconhecimento do bem-estar das pessoas, de um planeta equilibrado e de sistemas sociais resilientes. Existe uma interdependência entre estas dimensões. Precisamos também de incorporar um conceito que a Plataforma quer introduzir no léxico português: o longo termo. O longo termo significa incorporar na nossa consciência ética e moral do presente o bem que podemos fazer para as gerações futuras.