Governo dos Açores acompanha trabalho da Associação “Mais Lusofonia” no apoio às comunidades lusófonas

A identidade açoriana está profundamente ligada à diáspora e às comunidades lusófonas que, ao longo dos séculos, têm encontrado nos Açores um ponto de encontro entre culturas e tradições. O Governo da Região Autónoma dos Açores, através da Direção Regional das Comunidades, tem desempenhado um papel fundamental no fortalecimento destes laços, tanto no apoio aos imigrantes lusófonos que vivem no arquipélago, como na valorização da vasta diáspora açoriana espalhada pelo mundo.

Neste contexto, a presença do diretor regional das Comunidades, José Andrade, na terceira Gala Beneficente da Associação “Mais Lusofonia”, em Castelo Branco, Portugal continental, reforça o compromisso dos Açores com a promoção da cultura lusófona e a criação de pontes entre as diversas comunidades. A parceria entre a Direção Regional das Comunidades e a referida Associação, liderada pela luso-brasileira Sofia Lourenço, tem sido essencial para impulsionar iniciativas que valorizam a herança cultural comum e o apoio às comunidades lusófonas.

Em entrevista à nossa reportagem, José Andrade, diretor regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores, falou sobre o trabalho desenvolvido nos Açores e a importância de iniciativas como esta gala para a união e cooperação entre povos que partilham uma história e um idioma em comum, além de enumerar os projetos futuros.

Nas últimas semanas, esteve no continente a participar numa Gala promovida pela Associação Mais Lusofonia, com sede em Castelo Branco, que foca as suas ações na comunidade lusófona. Qual o nível de parceria entre a Direção Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores e a referida Associação?

A Direção Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores e a Associação Mais Lusofonia partilham objetivos coincidentes na sua missão estratégica, designadamente, ao nível da ligação às comunidades lusófonas. Por isso, temos um promissor caminho a percorrer, com possíveis iniciativas conjuntas ou atividades partilhadas, no âmbito de uma parceria que se quer crescente e mutuamente vantajosa. Tomei contato com a Associação em setembro de 2023, por ocasião do seminário “Brasil em Portugal: Integrando, Investindo e Aprendendo”, promovido pela Casa do Brasil – Terras de Cabral, no auditório da Escola Profissional do Fundão, como orador convidado do painel sobre “Investimentos & Empregabilidade”. Quatro meses depois, em janeiro de 2024, fui convidado a participar na segunda Gala Beneficente da “Mais Lusofonia”, mas não pude estar presente por incompatibilidade de agenda, e, um ano depois, em janeiro de 2025, tive o grato prazer de tomar parte na sua terceira Gala Beneficente, realizada na cidade-berço da própria Associação, em Castelo Branco, região Centro do país.

Como avalia o evento e o que pôde experienciar?

Foi aí que tive oportunidade de conhecer melhor a Associação Mais Lusofonia e, em especial, a missão solidária que desenvolve em Cabo Verde. Fiquei muito bem impressionado com o espírito voluntarioso e a capacidade empreendedora dos seus dirigentes e associados, mas sobretudo com a liderança inspiradora da sua fundadora e presidente, Sofia Lourenço. Ela própria é um exemplo notável de solidariedade ao serviço da lusofonia, porque nasceu no Brasil, vive em Portugal e trabalha em benefício do desenvolvimento social dos países africanos de língua oficial portuguesa. Destaco aqui o trabalho solidário que tem vindo a desenvolver em Cabo Verde, a que nos ligam especiais relações de cumplicidade. Nos extremos da Macaronésia, Açores e Cabo Verde partilham o mesmo oceano Atlântico, a mesma condição arquipelágica, o mesmo número de ilhas habitadas, a mesma história, a mesma língua, a mesma cultura e, até, a mesma vocação emigratória – somos muitos mais na nossa diáspora do que nas nossas ilhas – com comunidades comuns na costa Leste dos Estados Unidos. Portanto, Cabo Verde é uma das causas comuns que o Governo dos Açores partilha com a associação “Mais Lusofonia” e isso mesmo tive ocasião de confirmar em contatos desenvolvidos com autoridades cabo-verdianas, igualmente presentes nesta Gala da Lusofonia.

No contexto deste evento, recebeu uma homenagem, atribuída em outra oportunidade, como reconhecimento pelo seu trabalho em prol das comunidades. Qual o seu sentimento em relação a este facto?

Foi uma honra, imerecida, ser homenageado pela “Mais Lusofonia” enquanto Diretor Regional das Comunidades do Governo dos Açores. Faço tudo o que posso, mas não mais do que a minha obrigação, e tudo o que faço é também resultado dos colaboradores que tenho e das parcerias que mantenho. A Dra. Sofia Lourenço, essa sim, é que é merecedora do nosso reconhecimento pelo trabalho espontâneo e voluntário, consistente e consequente, que desinteressadamente sempre faz acontecer.

Na sua opinião, como as comunidades lusófonas têm auxiliado no desenvolvimento económico dos Açores? Tem números atualizados dos imigrantes e as suas nacionalidades residentes nos Açores, hoje?

As comunidades lusófonas em geral – e, em especial, a comunidade brasileira, mas também, por exemplo, a comunidade cabo-verdiana – são parte integrante e interessante do desenvolvimento dos Açores, a nível cultural, social e económico. Brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, são-tomenses, moçambicanos ou guineenses, como a generalidade dos imigrantes nos Açores, mas com a facilidade acrescida da cumplicidade linguística, contribuem para reforçar e valorizar a diversidade cultural, para compensar a erosão demográfica e para ultrapassar as carências locais de mão-de-obra adequada, designadamente, na hotelaria, na restauração e na construção. Segundo o mais recente relatório da AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, relativo ao ano de 2023, residem oficialmente na Região Autónoma dos Açores mais de seis mil cidadãos estrangeiros provenientes de 98 países. Destes cidadãos ainda sem cidadania portuguesa, 1.834 são naturais de outros países lusófonos: 1.351 do Brasil, 315 de Cabo Verde, 58 de Angola, 43 de Guiné Bissau, 34 de São Tomé e Príncipe, 31 de Moçambique e 2 de Timor Leste.

Como avalia o papel do governo açoriano na valorização da diáspora açoriana?

A diáspora açoriana é muito importante para a Região Autónoma dos Açores e, por isso, é devidamente valorizada pelo governo açoriano. Assim tem sido em quase meio século de autonomia política: primeiro com o Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas, logo em 1976, depois com a Direção Regional das Comunidades, a partir de 1997, e agora no quadro acrescido da nova Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, no âmbito da orgânica do XIV Governo dos Açores, desde 2024. Este é o reconhecimento de que estamos mais fora do que dentro (menos de 250 mil habitantes nas nove ilhas e mais de três milhões de açorianos e açordescendentes no Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá) e a prova de que os Açores só ficam verdadeiramente completos com a sua “décima ilha”.

Que ações e agenda tem previstas para os próximos tempos em relação à diáspora açoriana?

Posso dar aqui alguns exemplos, entre outros possíveis. O colóquio “Pensar a Diáspora” vai reunir em Ponta Delgada, no mês de março, personalidades representativas das comunidades açorianas de Brasil, Estados Unidos, Canadá e Bermuda, para diagnosticar a situação atual e perspetivar os desafios futuros. A Sister Cities Summit vai conjugar a participação das cidades de Portugal e das cidades dos Estados Unidos da América que se encontram geminadas entre si, no mês de junho em Ponta Delgada, em parceria com a FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. O Fórum Global do Espírito Santo vai congregar especialistas internacionais sobre a mais representativa devoção açoriana por ocasião das Grandes Festas do Espírito Santo realizadas em Ponta Delgada em julho, na Nova Inglaterra em agosto e em Santa Catarina em setembro. Os Jogos das Comunidades vão desafiar os jovens açordescendentes da diáspora açoriana a conhecerem os Açores e a celebrarem a Açorianidade, em setembro, na ilha Terceira.

Por fim, como caracteriza o trabalho desenvolvido pela Direção Regional das Comunidades e qual a importância de se valorizar e promover iniciativas tendo em vista a comunidade lusófona residente no arquipélago e a diáspora açoriana?

A Direção Regional das Comunidades do Governo dos Açores tem uma dupla missão, que cumpre com gosto: fomentar a Açorianidade, com os açorianos e açordescendentes residentes no exterior da Região, e facilitar a Interculturalidade, com os imigrantes que se encontram radicados nas nossas ilhas. Em ambos os casos, a língua portuguesa é um instrumento importante, seja através da sua preservação junto das novas gerações da diáspora açoriana, seja através da sua aprendizagem por parte dos “novos açorianos” que nos chegam de países não lusófonos. Na diáspora, apoiamos o funcionamento de organizações comunitárias, como, por exemplo, a escola oficial portuguesa da Bermuda. Nos Açores, promovemos Cursos de Português para Falantes de Outras Línguas, já com 36 turmas em 12 anos envolvendo 690 formandos de 55 nacionalidades diferentes.

O artigo foi publicado originalmente em Gazeta Rural.


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