
“Para ganhar as eleições, temos de resolver esse problemas dentro da família”, desabafou na segunda-feira, 30 de março, Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), a formação cuja principal figura é o ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja líder da ala feminina é a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e cujo candidato ao Planalto nas eleições de outubro é o senador Flávio Bolsonaro. Os irmãos deste, o deputado Eduardo Bolsonaro e os vereadores Carlos e Renan Bolsonaro, entretanto, também são ativos na campanha via redes sociais.
Em causa, as guerras cada vez mais públicas entre Michelle e os quatro irmãos. Uma das mais públicas ocorreu em dezembro quando Michelle criticou em visita ao Ceará a aliança da direção local do partido com Ciro Gomes, candidato presidencial em 1998, 2002, 2018 e 2022 que quer concorrer este ano a governador daquele estado.
“Fazer aliança com um homem que é contra o maior líder da direita [referindo-se a Jair Bolsonaro] não dá, nós queremos pacificar, ter unidade e essa pessoa [Ciro Gomes] nunca levanta a bandeira branca, continua a dizer que a família é de ladrões, de bandidos, compara Bolsonaro a um ladrão de galinhas, então não tem como aliar, não existe isso”, disse a ex-primeira-dama do Brasil.
O discurso indispôs André Fernandes, presidente do PL no Ceará, que articulou essa aliança com o aval do próprio Jair Bolsonaro. “O presidente Bolsonaro pediu, em viva voz, para ligarmos a Ciro Gomes a dizer que o apoiaríamos”, queixou-se Fernandes.
Flávio saiu em defesa do líder cearense. “Michelle atropelou o presidente Bolsonaro (…) e a forma como se dirigiu [a André Fernandes] foi autoritária e constrangedora”, disse em entrevista ao jornal , onde explicou que o objetivo no Ceará é assinar um acordo pragmático com Ciro, uma vez que ambos têm o presidente Lula da Silva, com muita força na região, como adversário comum.
“O meu irmão está certo”, acrescentou o vereador Carlos Bolsonaro, “temos de estar unidos em torno da liderança do meu pai e não nos deixar levar por outras forças”, escreveu nas redes, publicação partilhada pelo meio-irmão e também vereador Renan. “O que foi feito foi injusto e desrespeitoso com o André Fernandes”, disse, por sua vez, o deputado Eduardo.
Eduardo que, já em fevereiro deste ano, atacou a madrasta e Nikolas Ferreira, deputado estrela do partido. “Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Você vê um lado a lado, um compartilha o que o outro publica e se apoiam na rede social. Estão com amnésia, talvez, não sei por qual motivo […] não quero gerar mais polémica, mas acho que todo mundo sabe o que está acontecendo”.
Na sequência, Nikolas disse que Eduardo “não anda bem” e Michelle fez uma indireta nas redes usando a alcunha, “bananinha”, do enteado.
Como pano de fundo, segundo os observadores, a suposta preferência da ex-primeira-dama (e de Nikolas) por uma candidatura presidencial da direita bolsonarista em torno de Tarcísio de Freitas, bem avaliado governador de São Paulo, talvez com ela como candidata a vice, solução que Jair Bolsonaro preteriu, a favor de Flávio num ainda com número dois por definir.
E é essa indefinição que está a gerar o último capítulo da guerra familiar a que Valdemar se referiu. O presidente do PL deseja Tereza Cristina, moderada ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro como vice de Flávio para atrair o influente setor económico do agronegócio e reduzir a aversão do eleitorado feminino ao bolsonarismo – segundo pesquisa do Poder360 de 2023, 58% das mulheres (e só 47% dos homens), votaram no candidato Lula em 2022.
O nome não desagrada a Flávio. Mas o desejo de Valdemar de ter uma mulher, Tereza Cristina ou outra, como vice, sim. Porque isso implicaria mais influência da líder do PL Mulher na escolha – e essa líder é Michelle Bolsonaro. “A movimentação já gerou mais um mal-estar na família Bolsonaro”, disse o colunista Gabriel Sabóia no programa Ponto de Vista, da revista . “Seja qual for a mulher escolhida, precisaria contar com a anuência de Michelle (…) e a pressa de Valdemar causa um atrito”.
Tereza Cristina, entretanto, disse que, se for convidada, avaliará. “Ser vice não é o meu sonho de consumo, sinto-me honrada por ser falada mas também posso ser candidata a presidente, porque não? Mas isso não depende só da minha vontade”, afirmou a senadora, de 71 anos, do Progressistas, outro partido de direita.
Em evento de filiação de cinco novos deputados ao PL, Reinaldo Azambuja, o presidente do partido no estado do Mato Grosso do Sul, o mesmo da senadora, disse “ter vontade” de a ver como vice de Bolsonaro. “Eu olho para a Tereza Cristina e me dá uma vontade de ver você como vice do Flávio Bolsonaro, eu sei que você vai ser guerreira, vai falar o que fez como melhor ministra da Agricultura do Brasil nos momentos mais difíceis…”.
Entretanto, alas da candidatura de Flávio sonham com Romeu Zema como vice. O ex-governador de Minas Gerais, no entanto, é, por ora, candidato inflexível a presidente.