Este artigo foi originalmente publicado no 22.º número da
revista DDD – D de Delta.
O Café da Floresta de Toki, a mais recente edição de Impossible Coffees, tem uma história que envolve ópio, missionários cristãos e um rei visionário. É sobre uma revolução silenciosa nas montanhas de Chiang Mai – entre 1200 e 1500 metros de altitude, habitada há séculos pelas tribos Karen – que transformou antigas plantações de papoilas em cafezais. “A produção é escassa e quase toda consumida internamente. A exportação é mínima ou inexistente. Por isso, cada lote que conseguimos trazer até aqui é absolutamente raro”, diz Clara Melícias, diretora da Delta Coffee House Experience, com lojas em Lisboa, Porto e Paris. “É também a primeira vez que um café tailandês premium chega à Europa”, revela. Uma preciosidade que atravessou fronteiras pela mão de um jovem produtor chamado Toki e pela determinação do Grupo Nabeiro em provar, uma vez mais, que o impossível acontece “quando se une coragem, compromisso e impacto real”.
Nos anos 60, os missionários cristãos que chegavam às montanhas do norte da Tailândia iam munidos de fé e de bíblias, mas também levavam consigo sementes de café arábica. Tudo isto fazia parte de uma política pública promovida pelo rei Bhumibol Adulyadej para incentivar os camponeses a substituir as suas produções de ópio por culturas sustentáveis, rentáveis – e que também fossem legais. Ambição que parecia impossível numa região onde o cultivo da papoila era, há gerações, a principal fonte de rendimento. Mas em poucos anos, graças a grãos de café provenientes da Colômbia, as montanhas na região de Chiang Mai e Chiang Rai encheram-se de cafezais.
[embedded content]
“A nossa família começou a plantar café ainda no tempo dos meus bisavós”, revela Toki, produtor que hoje lidera uma das mais respeitadas produções de café de montanha no norte da Tailândia. “Já o fazemos há quase 50 anos.” Durante décadas, essas árvores serviram essencialmente para ajudar a equilibrar o ecossistema. Não se pensava no café como fonte de rendimento – era apenas mais uma planta que coexistia bem com a floresta, que ajudava a proteger as nascentes de água e que, de vez em quando, dava alguns frutos para consumo familiar. Tudo mudou quando Toki, depois de viver na cidade, decidiu regressar à aldeia. “Quando voltei, vi na floresta os antigos cafeeiros que tinham sido plantados e procurei conhecimento para desenvolver ainda mais esse café que já existia na comunidade”, conta.
O que Toki fez foi muito mais do que produzir café. Ao redescobrir os cafeeiros plantados pelo avô há décadas, árvores que tinham crescido sem qualquer intervenção, em sombra total, num terroir único, ele começou a transformar um legado que estava esquecido. Criou riqueza, preservou a floresta e mostrou à geração seguinte novos caminhos. Mostrou, no fundo, que é possível sonhar e realizar. “Habituado a brincar livremente na floresta durante a sua infância, Toki a certa altura descobriu estas plantas e prometeu dedicar-se à sua preservação”, recorda Clara Melícias. “Com coragem, curiosidade e uma vontade enorme de aprender, começou a experimentar, a melhorar processos e a partilhar o seu saber com outros agricultores. E, do nada, nasceu o seu café.”
A ligação entre Toki e a Delta Cafés surgiu de um acaso improvável. Gonçalo Loureiro é um redator comercial português que vive em Chiang Mai e trabalha, à distância, com uma agência de publicidade que tem o Grupo Nabeiro como cliente. Este, conhecendo bem o panorama do café na região, quando provou o produzido por Toki percebeu que encontrara algo especial. “Ele enviou aos colegas da agência uma amostra, que, por sua vez, nos fizeram chegar esse café. A partir daí, nós provámos e começámos a desenvolver o contacto”, explica Nuno Medeiros, responsável de Corporate Affairs e uma espécie de coffee hunter no projeto Impossible Coffees, que começou por trazer ao mercado café produzido nos Açores, depois em São Tomé, em Angola e que agora nos traz este da Tailândia.
Tendo provado o café de Toki, Clara Melícias e o ceo do Grupo Nabeiro, Rui Miguel Nabeiro, viajaram até à Tailândia para conhecer pessoalmente o seu produtor. “Foi num pequeno espaço comunitário, onde os produtores da região se juntam para torrar, provar e trocar experiências sobre os seus cafés”, recorda Clara. “Foi ali que percebemos que este projeto não é só sobre café, é sobre pessoas, comunidades e a força das ligações que o café consegue criar”, resume. Por sua vez, Rui Miguel Nabeiro sublinha que a Tailândia é hoje uma das origens emergentes mais excitantes no mundo do café: “Precisamente por ser ainda pouco conhecida nas rotas mais habituais. Há famílias que acreditam que o café poderia mudar destinos. Regiões inteiras foram reconvertidas e nasceu uma cultura regenerativa, justa e com futuro.”

Quando o café de Toki chegou à mesa de provas do laboratório da Delta Cafés, em Campo Maior, o mestre cafeeiro Adelino Cardoso percebeu logo a natureza excecional do que tinha em mãos. “Vi estes aromas e depois o sabor associado, com características sensoriais frutadas, entre o abacaxi e a manga, mas também com notas refrescantes de limão, muito presentes nesta bebida”, recorda.
A altitude, a incidência solar filtrada pela copa das árvores, a sombra natural da floresta – tudo contribui para o terroir que torna este café único. “A própria acidez que a bebida mantém depois de provada, leva-nos a um café especial e com retrogosto prolongado.” O processo de torra também teve de ser ajustado. “Este café, pelas características que apresentava, requeria uma curva de torra especial”, revela. “É preciso baixar a temperatura para não destruir a parte química – a acidez, o sabor a manga, abacaxi, limão e aquele toque floral.”
Os Impossible Coffees nascem da coragem de quem ousa desafiar a geografia, a história e o destino. São origens improváveis, onde o café floresce contra todas as expectativas”, diz Rui Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro.
O resultado é um café originário da Tailândia que cumpre os padrões internacionais de qualidade e que obteve uma pontuação de 84,25 pontos da Specialty Coffee Association. Ou seja, que pertence ao grupo restrito dos cafés que conseguem pontuar aos mais altos níveis de qualidade, segundo o ranking global da sca. “É por isso tão raro e especial tê-lo aqui”, sublinha Clara Melícias.
“Os Impossible Coffees nascem da coragem de quem ousa desafiar a geografia, a história e o destino. São origens improváveis, onde o café floresce contra todas as expectativas”, afirma o ceo do Grupo Nabeiro. “Sempre que olho para trás, vejo que cada nova história nos confirma que estamos no caminho certo”. Com os Impossible Coffees, a Delta criou um laboratório vivo de impacto real, que valoriza microlotes raros, abre portas para que produtores invisíveis possam chegar ao mundo e dá palco às suas histórias.
“Começámos nos Açores, com o primeiro café 100% português, onde contribuímos com o apoio técnico e formação contínua para a preservação de uma cultura agrícola única na Europa. Depois, fomos até São Tomé e Príncipe, onde a teimosia e a paixão de um produtor mantiveram viva a tradição quase perdida. Chegámos a Angola, onde a coragem de um grupo de mulheres transformou café em futuro. E agora escrevemos um novo capítulo na Tailândia. Uma terra onde o café nasceu contra todas as probabilidades, transformando antigas plantações de ópio em comunidades que agora colhem esperança em cada grão”, resume Rui Miguel Nabeiro. “O projeto Impossible Coffees não é um gesto isolado: é a expressão mais visível de uma forma de estar no café que a Delta quer continuar a honrar. Cada uma destas origens tem-nos provado que o impossível não é um limite. É apenas o início de uma nova história.”

O compromisso do grupo na Tailândia não se limita à compra de 500 kg de café, cerca de 30% da produção total de Toki. Também se compromete a reverter diretamente para Toki 10% das receitas das vendas, de modo a que possa reinvestir na produção e na comunidade. O objetivo é claro, explica o produtor tailandês: “Queremos a floresta, queremos o modo de vida tradicional e queremos sustentabilidade, incluindo a economia da comunidade, para que tudo possa coexistir. E o café é uma planta que pode coexistir bem com as árvores e o nosso modo de vida, e também pode gerar rendimento para nós.”
Em embalagens de edição limitada, o Impossible Coffee da Tailândia está à venda em exclusivo nas Delta Coffee House Experience de Lisboa, Porto e Paris, onde inaugurou recentemente uma nova loja – a primeira fora de Portugal. Há aqui um simbolismo especial, como lembra Clara Melícias: “França e Tailândia cruzaram-se ao longo dos tempos em comércio, cultura e diplomacia. Ao lançarmos este café também em Paris, damos continuidade a essa ligação, mostrando como o café pode unir geografias, cultura e história.”

