Numa nova realidade em que o consumo de bebidas alcoólicas – entre elas a cerveja – enfrenta desafios que vão da mudança de hábitos das gerações mais novas à pressão regulatória e aos efeitos em cadeia de guerras e crises energéticas, os números à volta da bebida, na Europa, mostram que a tradição tem resistido às novas tendências.
“Quando falamos do impacto económico da cerveja, falamos de mais de 52 mil milhões de euros em valor acrescentado e de cerca de 2 milhões de empregos na Europa”, diz Julia Leferman, secretária-geral da Brewers of Europe, em entrevista ao Dinheiro Vivo, na qual reafirmou a preponderância do setor para a economia europeia. À frente da principal organização do setor no continente há cerca de um ano e meio, Leferman, nascida na Roménia e hoje a viver em Bruxelas, na Bélgica, sede da Brewers of Europe, coordena uma estrutura que representa cerca de 10 mil cervejeiros.
A entidade engloba desde os grandes grupos industriais às pequenas unidades artesanais, num ecossistema que vive diversos desafios, como o contexto de retração do consumo – especialmente entre os jovens, um dos principais motivos de preocupação. “Há uma combinação de desafios, mas talvez o mais recorrente seja o declínio do consumo”, admite, apontando para quedas que, no último ano, oscilaram entre valores de dois dígitos em alguns países e reduções mais moderadas, de entre 5% a 6%, noutros.
Leferman acredita a explicação desta queda ainda é muito ligada aos anos pandémicos e às dificuldades de ressocialização. “Os jovens que hoje entram na idade legal para consumir álcool passaram uma fase importante da adolescência em confinamento. A forma como socializam está a mudar, e não sabemos até que ponto as plataformas digitais estão a substituir os encontros presenciais”, observa, sublinhando o papel da cerveja como estando fortemente associada à convivência física.
Para a gestora, a dimensão social ganha ainda mais relevância fora dos grandes centros urbanos. Em muitas zonas rurais europeias, os bares e funcionam como espaços centrais de encontro, e o seu desaparecimento pode ter impactos que vão para além da economia, também ao nível comportamental de uma nova geração. “Quando esses espaços deixam de existir, a interação social reduz-se significativamente, o que é evidentemente algo que pode ter consequências a longo prazo”, alerta.
Outro ponto que tem gerado preocupação no setor é a tendência para hábitos mais saudáveis das gerações mais novas, especialmente num contexto em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que não existe um nível seguro de consumo de álcool. Perante este cenário, o setor tem optado por uma estratégia de adaptação, acompanhando a mudança de hábitos dos consumidores, em particular no que diz respeito à redução do consumo de álcool.
A aposta na inovação, conta Leferman, tem sido um dos principais caminhos. “Temos investido muito em produtos de menor teor alcoólico e em cervejas sem álcool. Hoje, já não é necessário justificar essa escolha, o que mostra como o mercado evoluiu”, afirma, destacando um crescimento de cerca de 25% neste segmento nos últimos cinco anos na Europa.
Em Portugal, a evolução tem ganhado nova expressão com os avanços tecnológicos. “A primeira cerveja sem álcool foi lançada há 30 anos, mas na altura a qualidade não era a mesma, hoje o investimento e grau de refino é muito maior”, recorda Carlota Burnay, representante da Brewers of Europe em Portugal e também presente na conversa com o Dinheiro Vivo. Com processos mais sofisticados, como a filtragem a frio, a indústria, segundo a dupla, tem conseguido manter o sabor e ampliar a diversidade de oferta, incluindo estilos como IPA ou , tornando estas alternativas cada vez mais relevantes no portefólio das marcas.
Os desafios na produção
Se do lado da procura há sinais de transformação, do lado da produção os desafios têm sido igualmente intensos – e cada vez mais dependentes de um contexto geopolítico instável. À guerra entre Rússia e Ucrânia somaram-se as recentes tensões no Irão e noutros países do Médio Oriente, com impacto direto nos custos energéticos e nas cadeias de abastecimento globais. “O setor é altamente intensivo em energia – precisamos de calor para produzir, frio para conservar, transporte e embalagens – e tudo isso está sujeito a variações de preço”, explica Leferman.
De acordo com a secretária-geral, Portugal, por exemplo, surgiu entre os mercados que, numa fase inicial, melhor resistiram ao impacto no início da década, acompanhado por Espanha, beneficiando sobretudo do regresso do turismo após a pandemia.
Ainda assim, essa trajetória positiva contrasta com o que se observou posteriormente, quando a combinação entre pandemia, crise energética e inflação alterou de forma mais duradoura os padrões de consumo em diversos países da Europa.
Segundo a secretária-geral da Brewers of Europe, o efeito económico, especialmente da crise energética associada às guerras, faz-se sentir em várias frentes: do aumento do preço da cevada ao encarecimento do alumínio utilizado nas latas, passando pelo vidro, cuja produção foi afetada pelo encerramento de unidades industriais em zonas de conflito. “Estamos expostos a estas dinâmicas globais. Quanto mais prolongadas forem as guerras, maior será o impacto”, diz.