Juntos na natureza, divididos pela inação

Portugal e Espanha partilham muito mais do que a fronteira. Partilhamos o gosto culinário que nos junta à mesa, o vinho que anima as conversas e uma herança natural que ainda não gerimos bem em conjunto. Enquanto celebramos a cultura comum e se assinam acordos e tratados, a natureza chama por uma cooperação que vá além das palavras.

Os rios transfronteiriços que correm de Espanha para Portugal transportam nutrientes, sedimentos e vida, mas também problemas que têm sido ignorados. A gestão de recursos hídricos é um exemplo de como os dois países podem partilhar um problema e não a solução. Enquanto Espanha removeu mais de 100 barreiras fluviais obsoletas nos seus rios só em 2023, Portugal continua muito aquém, quando devia investir mais nas remoções e no restauro ecológico das margens e das galerias ripícolas.

No sudoeste da Península Ibérica, extensas áreas de montado são um símbolo de como a natureza e as comunidades humanas podem coexistir. Mas o equilíbrio dos ecossistemas está ameaçado pelo pastoreio excessivo, pela mobilização inadequada do solo e pela expansão da agricultura intensiva que adicionalmente sobreexplora os recursos naturais.

Enquanto isso, espécies icónicas como o lobo ibérico, que desempenha um papel essencial no equilíbrio da cadeia alimentar natural, continuam a lutar pela sobrevivência, agora numa situação mais precária: o número de alcateias e área de ocorrência do lobo em Portugal diminuiu nos últimos 20 anos, e Espanha acabou de repor a caça ao lobo a norte do Rio Douro.

E no mar? Portugal, que tem uma Zona Económica Exclusiva com quase dois milhões de km2 e alberga 89% das espécies conhecidas em mares europeus, continua a permitir a captura acidental de espécies vulneráveis como o boto e alguns tubarões e raias, quando deveria empenhar-se em salvaguardar espécies tão importantes no oceano. A enguia, espécie que encontramos nos rios e mares dos dois países, também está em risco. Precisamos de nos coordenar para gerir melhor as interações das pescas com cetáceos, proteger com Espanha áreas importantes para tubarões e raias, e atuar de forma concertada para proteger a enguia.

Quer tudo isto dizer que há uma ausência total de cooperação entre Portugal e Espanha? Não, mas continua muito aquém do que deveria e pode ser. A Convenção de Albufeira, assinada em 1998, é um marco da gestão partilhada da água e definição de caudais periódicos mínimos, mas continua a falhar na definição de um regime de caudais ecológicos e a carecer de um secretariado técnico permanente que possa fornecer o apoio necessário para uma implementação eficaz – “rio passado, santo esquecido”.

A conservação do lince-ibérico é um caso de sucesso. Outrora à beira da extinção, a população tem recuperado graças a esforços conjuntos de conservação de ambos os Estados e não só, incluindo programas de reprodução fora do local de origem e de reintrodução na natureza. A WWF Espanha lidera atualmente um projeto de conservação do coelho-bravo (a principal presa do lince-ibérico) com a participação da WWF Portugal, contribuindo assim para a sobrevivência do lince. Mas será que precisamos esperar que uma espécie esteja à beira da extinção para unir esforços e agir?

O património natural ibérico exige uma resposta conjunta. Portugal e Espanha têm a oportunidade de mostrar à Europa e ao mundo que a conservação da natureza através da cooperação é possível. Para isso é necessário mais do que discursos e protocolos. É preciso ação.

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