
A escolha de Luís Neves para a Administração Interna é, antes de mais, um gesto de inteligência política por parte do primeiro-ministro Luís Montenegro. Não apenas porque o antigo diretor Nacional da Polícia Judiciária (PJ) conhece como poucos os dossiers mais sensíveis do Estado, mas porque a sua nomeação rompe com uma tendência seguida pelo Governo nos últimos dois anos: a tentação de seguir, quase que por osmose, a retórica securitária que tem marcado o discurso do Chega, sobretudo em matéria de imigração. A entrada de Luís Neves no Governo é, por isso, mais do que uma opção técnica. Sinaliza uma mudança de rumo e, ainda, um foco redobrado na eficácia e na capacidade de concretização.
A este respeito, convém recordar um momento que Luís Neves protagonizou, na conferência dos 160 anos do Diário de Notícias, em 2025. Na altura, o então diretor Nacional da PJ defendeu, com a serenidade de quem fala com base em factos, que não existe uma relação de causa e efeito entre o aumento da imigração e a subida da criminalidade. A intervenção do líder da PJ na conferência do DN foi ovacionada e tornou-se viral, porque contrariava, de forma frontal, a narrativa que estava a ganhar espaço no debate público. Hoje, essa mesma postura está a ser chamada a ocupar o centro da política de segurança interna.