David Foster Wallace conta uma fábula que expõe a função da cultura e como a realidade mais evidente é difícil de explicar e sobretudo de ver:
Dois jovens peixes estão a nadar e encontram um peixe mais velho que nadava na direção oposta; o peixe mais velho acena com a cabeça e diz: “Olá miúdos! Como é que está a água?” Os peixes mais novos continuam a nadar e passado algum tempo um deles olha para o outro e diz: “Mas que raio é a água?”
Em 1992, no Sexus do Cavaquismo — o eucalipto era “petróleo verde” e objeto de desejo — plantei um eucalipto com 13 metros de altura com a raiz para cima pintado de cor de laranja na Rotunda do Relógio em Lisboa. Reverberação no PÚBLICO e Expresso durante a arena pré-eleitoral da altura, e o vereador do Turismo da Câmara de Lisboa, Vítor Costa, à data comunista, considera a escultura entartete Kunst e apressa-se a abater o Monumento ao Estado Laranja edificado poucos dias antes.
A paisagem em Portugal é hoje a coutada das Quatro Rainhas Más do poderoso lobby das indústrias da madeira e pasta de papel. A avidez corporativa e a complacência política mantêm-na sequestrada pelos 5% do PIB.
Quem tem floresta e a vê arder fica torturado quando pergunta aos bombeiros, com os seus potentes, luminosos e caros veículos: “Está tudo a arder! Porque não apagam?!” Resposta: “Não há ordens do comando.”
Para as televisões o fogo é entretenimento grátis: pessoas e animais que morrem, milhões de árvores a arder, a paisagem à noite fica iluminada, contribuintes em cuecas a gritar com uma mangueira na mão no meio do fumo e vento, há acidentes com carros de bombeiros e aviões, há colunas de fumo com tons de cinzento que sobem até seis quilómetros (como em Hiroxima) e há helicópteros e aviões amarelos a voar muito baixo, fazendo muito barulho.
É espetacular assistir a 20 metros ao enchimento do balde de um helicóptero de combate a incêndios. Se o helicóptero passa por cima de ti é uma tempestade tropical de dois segundos!
Isto acontece enquanto as Quatro Rainhas Más, com os culi grassi espalmados em soft pads de 5000 euros, assistem em luxuosos escritórios, com apaixonada schadenfreude, ao Armageddon da paisagem em Portugal.
Os E. globulos são os Rambos das árvores. Solitários, duros, direitos, imunes e perfumados. Falam pouco, crescem rápido e adaptam-se a todos os climas quentes. Têm sete vidas e reproduzem-se pelo fogo. Ocuparam 19% do território, onde não há caçadores, porque não há animais para matar, exceto abelhas. Mais valiosos queimados, cortados ou certificados do que como ideia de paisagem. À propos, os koalas detestam E. globulus e preferem E. radiata ou E. viminalis e as fêmeas adoram E. ovata. O Jardim Zoológico de Lisboa tem vários fornecedores destas espécies para alimentar os bichos com folhas dos ramos mais altos.
A desterritorialização da paisagem em Portugal é observável cruzando os números do Portal Base, Direção Geral das Atividades Económicas, Pordata, MAI, Inventário Florestal Nacional e Fundo Florestal Permanente. Em 2022, o ICNF registou o recorde de área ardida: 110.007 hectares. Em Setembro de 2024 arderam 147.461 hectares. Até 30 de Novembro de 2025 arderam 270.000 hectares. Mas só 2% dos incêndios tem origem em causas naturais!
Portugal arde por legislação, incluindo a lei de financiamento dos bombeiros (área ardida + horas extraordinárias).
Uma tonelada de E. globulus vale 50 euros na fábrica e um hectare dá 1000 euros/ano. Uma amiga minha tem 600 hectares de eucaliptos e diz-me: “Ai, Pedro, os eucaliptos são uma maravilha. Este ano vendemos uns hectares e fizemos outra piscina, uma casa nos estábulos e trocámos o Tiguan…”
Acrescentando a esta calamidade catastrófica a voracidade das indústrias de pellets e biomassa, que só podendo receber resíduos, contornaram a legislação com trituradoras que transformam em “sobrantes” as árvores à saída da floresta (incluindo folhosas).
No script de terror contra a paisagem portuguesa entra o fundo Land que quer angariar 500 milhões para comprar 2,25% de Portugal e fazer do território nacional um jardim nos 11 mais da Country Life. Oferecem aos investidores até 10% de retorno.
Que árvores sequestram mais carbono? Os Rambos das árvores! Vitória para as Quatro Rainhas Más que vão poder certificar os seus milhões de recrutas como coveiros de carbono (o desastre como sustentibilidade). Um hectare de E. globulus sequestra entre 15 e 33 toneladas de CO₂ ano. A cotação de 1 crédito de carbono nos mercados regulados é actualmente de 80 € (EU ETS). 25 toneladas de CO₂ x 80€ = 2.000€ hectare/ano.
O Monumento à Floresta Portuguesa, instalado no Parque Papa Francisco, Bobadela, é a figuração fúnebre da paisagem em Portugal: um eucalipto com 11 metros, plantado com a raiz para cima e pintado com borracha líquida preta — como os melancólicos submarinos Arpão e Tridente. A iluminação noturna têm a referência RAL 3000 Flame red.
Sacrificial e meta-pop. Um contributo para a responsabilização política pela predação dos recursos florestais, eco-iliteracia, opróbrio ambiental e despossessão visual da paisagem.
A fábula contada por Wallace com eucaliptos: uma jovem floresta com cinco milhões de E. Globulos com cinco metros de altura, ondula ao vento numa montanha e repara num velho eucalipto com 50 metros que se mantinha imóvel; o velho eucalipto um dia, em janeiro, inclina-se para os jovens eucaliptos e diz: “Olá, miúdos! Já descobriram o fogo?” Os jovens eucaliptos continuam a ondular e, em setembro, agora com dez metros, um deles olha para os outros e diz: “Mas que raio é o fogo?”
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990