
A União Europeia aprovou esta semana o acordo comercial com o Mercosul, que basicamente consiste em baixar as tarifas aduaneiras de uma lista de produtos com os 4 países do Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que reúnem 270 milhões de pessoas. O acordo foi negociado ao longo de 25 anos e apesar de concluído em 2019 esteve “parado” desde então até que a guerra de Tarifas com Trump e também com a China parece ter tornado urgente concluir este acordo para procurar mercados alternativos para as nossas exportações.
Sempre vi esse acordo com apreensão. Em resumo, dizia-se que a Europa iria facilitar a entrada de produtos agrícolas para poder vender carros, e sempre houve muitas reservas por parte da agricultura europeia. Por causa disso, foram negociados limites de quantidades em vários produtos sensíveis nos dois mercados. Por exemplo, o Mercosul só pode exportar 99.000 toneladas de carne a taxa reduzida e a Europa só pode exportar 30.000 toneladas de queijo a taxa reduzida. Nas últimas semanas, foram ajustadas “cláusulas de salvaguarda” que, por exemplo, suspendem o acordo na importação de carne se o preço baixar mais do que 5%. Também está previsto o controlo da qualidade por causa das diferenças de fitofármacos ou medicamentos autorizados, mas ainda não percebi como isso vai ser efetuado.
No caso da importação de milho ou soja para as nossas rações e óleos alimentares atualmente já não há tarifas e portanto não será de esperar mudanças.
O acordo é muito mais complexo do que posso explicar neste texto ou num dos muitos vídeos de 2 minutos feitos por especialistas em “Mercosul” que se tornam virais nas redes sociais. Redes sociais cujos algoritmos são controlados pela China ou Estados Unidos, os blocos económicos que são concorrentes da Europa e que tem todo o interesse em travar o acordo Mercosul, acabar com a União Europeia e dividi-la em pequenos países mais fáceis de dominar, por isso a minha opinião não se baseia apenas no que vejo na Internet mas sobretudo nas perguntas que vou fazendo a quem está no mercado e faz estudos. O acordo tem cerca de 180 páginas e uma série de anexos que quase ninguém leu.
Eu tenho muitas dúvidas e acho que tão cedo não vamos poder tirar conclusões, porque a implementação do acordo será gradual. As tarifas vão baixar ao longo de 10 a 15 anos, conforme os produtos. Quer dizer que na próxima semana, no próximo mês ou no próximo ano as coisas vão mudar muito pouco por causa do Mercosul e muito mais por causa de outras acontecimentos, guerras, inteligência artificial, doenças emergentes… que se sucedem a um ritmo cada vez mais vertiginoso e que daqui a dias ou semanas provavelmente quase toda a gente já esqueceu porque entretanto já passamos para a próxima indignação.
Também não posso esquecer que, se a indústria automóvel europeia falir, os trabalhadores não vão ter dinheiro para ir ao talho comprar bifes ou legumes ao mercado. Por outro lado, se a agricultura acabar, fica o território abandonado à mercê dos incêndios e fica a restante população sem segurança alimentar e dependente das importações. Por isso é preciso um equilíbrio que proteja ambos os setores.
No caso da agricultura portuguesa, quem estudou o assunto diz que o acordo poderá ser vantajoso para setores como vinho, o azeite e o queijo, pela possibilidade de exportação para o Brasil, pela nossa vantagem pela proximidade da relação com o Brasil, por falarmos a mesma língua, e poderá ser negativo por causa da importação de carne de bovino e aves.
Acho que devemos estudar melhor o que está no acordo, tentar perceber como pode afetar cada setor agrícola em concreto, como nos devemos preparar, como nos podemos adaptar e o que devemos lutar para mudar, por exemplo, desligar o complicómetro de regras com que a União Europeia nos atrofiou ao longo dos últimos anos.
Acho que não devemos entrar em desespero, não sofrer por antecipação, não desistir da agricultura, não deixar de trabalhar, mas manter uma atitude de prudência tanto em relação ao acordo como a quem quer aproveitar este acordo como a gota de água para provocar uma revolução. E não desatar a insultar quem pensa diferente de nós.
O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.