Vendo a forma como pessoas inteligentes, bem informadas e sérias ficam rendidas à manipulação emocional típica do populismo feita com epicentro em Coimbra, não há como não perder a esperança.
Uma coisa é reconhecer a manifesta elegância institucional de Ana Abrunhosa e a virtude de não se pôr a atirar responsabilidades para cima de terceiros, para além da sua competência comunicacional manifesta na forma pausada como fala, usando linguagem que toda a gente reconhece, e outras caraceterísticas positivas.
Outra coisa é a cegueira em relação à evidente manipulação emocional servida por essas virtudes, com o manifesto exagero da ameaça antes dos acontecimentos, e posterior recolha de louros decorrente do facto de, afinal, tudo ter corrido muito melhor, sobretudo depois de durante toda a epidemia de Covid se ter visto este tipo de procedimentos a cores e ao vivo, com os efeitos negativos posteriores.
Mais relevante é a facilidade com que esta manipulação emocional penetra em pessoas treinadas na crítica e análise racional da realidade, dificultando a aprendizagem que permita, no futuro, estar mais bem preparado para o que aí vem.
Note-se como o espectáculo mediático desvia a atenção da discussão fundamental sobre a gestão e manutenção das infraestruturas e da paisagem, facilitando a confusão entre diferentes realidades associadas à meteorologia das últimas semanas, para as quais seria necessário ter diferentes abordagens e que acaba tudo empastelado em discussões sobre diferentes abordagens comunicacionais dos intervenientes.
A meteorologia das últimas semanas contém dois fenómenos radicalmente diferentes: uma tempestade com ventos fortes e uma chuva abundante e prolongada.
São fenómenos completamente diferentes na sua natureza, e nas suas consequências, o que nos devia fazer discutir a forma como nos relacionamos com eles, em vez de estarmos enfeitiçados pela manipulação emocional associada.
A tempestade é um fenómeno de previsão difícil na sua potência e localização – nesse sentido aproxima-se mais de terramotos que de fogos e cheias – em que não há grande coisa a fazer no momento em que ocorre ou nas horas anteriores, para além de procurar abrigo.
Dada a sua imprevisibilidade e potencial de devastação, para além da relativa raridade nas nossas circunstâncias (Paulo Fernandes publicou um gráfico muito interessante que sugere que se começa a desenhar uma tendência de maior frequência, que tem uma explicação teórica simples e sólida, cito-o “temperatura mais alta = mar mais quente + atmosfera mais instável = vento mais forte”), a resposta de emergência é muito mais difícil e contingente, até porque infraestruturas básicas (estradas, redes de electricidade e comunicações) ficam destruídas ou inoperacionais durante algum tempo, o que exige um contexto institucional muito sólido, uma das mais conhecidas e recorrentes fragilidades do país.
A chuva abundante e prolongada – o prolongado aqui não é irrelevante porque o efeito da água sobre a paisagem é cumulativo – gera duas ameaças substancialmente diferentes.
A primeira, muito mais difícil por dispersa e mais imprevisível, são os deslocamentos de terra, com potencial destrutivo brutal, mas localizado (pode ter efeitos mais regionais em função da geologia, como no caso da região Oeste).
Tal como no caso das tempestades, a resposta é mais reactiva que de informação e organização.
A segunda, relativamente fácil de prever com antecedência, muito mais recorrente e conhecida e para a qual existem mecanismos preventivos eficazes (cito de novo Paulo Fernandes, as barragens estão para as cheias, como a gestão de combustível está para os fogos e o cinto de segurança para os desastres de automóvel) que podem limitar os seus efeitos, nomeadamente em mortes, são as cheias.
Distingamos aqui estas cheias das cheias rápidas que podem ocorrer na sequência de chuvas muito fortes e localizadas, de maneira geral de curta duração, cujos efeitos negativos resultam, essencialmente, da ocupação indevida de leitos de cheia.
Ora é na gestão destas cheias recorrentes, conhecidas, com mecanismos de controlo razoavelmente eficazes e com possibilidade de previsão bastante rigorosa com horas de antecedência, o que permite evacuações, gestão de caudais, reforço de infraestruturas, posicionamento do socorro, e outras medidas de gestão dos seus efeitos que a manipulação emocional típica do populismo encontra um campo fértil para, de forma muito pouco séria, se superiorizar a quem tem de lidar com catástrofes imprevisíveis.
A forma como tudo isto tem sido empastelado é uma autêntica autoestrada aberta ao populismo, e mata qualquer esperança de que o país, algum dia, venha a reconhecer o trabalho de dona de casa, que é preciso fazer todos os dias, em invisibilidade, para que os efeitos destes fenómenos sejam cada vez menos socialmente negativos, mesmo reconhecendo-se, como é forçoso reconhecer, que hoje estamos muito mais bem preparados que há anos, graças à tecnologia, que nos permite agir, à ciência, que nos permite prever, e à economia que nos permite ter recursos disponíveis.
Infelizmente o contexto institucional permanece muitos furos abaixo do que seria útil e, aparentemente, com aprovação e sustentação social muito alargada.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.