Uma equipa de investigação do CICECO-Instituto de Materiais de Aveiro e do Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica (DEMaC) da Universidade de Aveiro (UA), desenvolveu um dispositivo transdérmico flexível de microagulhas cerâmicas magnéticas, bem como o respetivo método de produção, ambos já patenteados a nível nacional.
O dispositivo pode ser usado para o tratamento de cancro da pele por hipertermia localizada, de forma pouco invasiva e praticamente indolor. A matriz de microagulhas pode incorporar com precisão de dosagem e administrar, através da pele (administração transdérmica), agentes quimioterapêuticos, imunoterapêuticos e outros fármacos destinados ao tratamento de lesões de pele pré-cancerígenas e cancerígenas, servindo assim de plataforma para a sua libertação/distribuição localizada e controlada.
O dispositivo pode ainda ser utilizado para outros fins terapêuticos, como alternativa à administração de fármacos por via enteral (toma de comprimidos ou injeções), com capacidade de fornecer tratamento local e sistémico (geral do organismo) com menor dosagem e redução de efeitos colaterais indesejados, ultrapassando as limitações dos adesivos transdérmicos convencionais.
O dispositivo consiste numa matriz de microagulhas biocerâmicas magnéticas porosas, fixadas a um suporte polimérico flexível e adesivo, concebido para aplicação direta sobre lesões cutâneas. A flexibilidade do suporte permite que o dispositivo se adapte à curvatura do corpo, garantindo que as microagulhas se mantenham corretamente inseridas na pele durante o tempo de aplicação, que pode variar entre algumas horas e vários dias.
Da equipa de investigação fazem parte: Paula Torres (investigadora do CICECO/DEMaC), Tânia Carvalho (estudante de doutoramento), Manuel Martins da Silva (coordenador da Estrutura de Projeto PRÉ ON – DISPOSITIVOS MÉDICOS), Ana Filipa Rodrigues (ex-aluna da UA) e Susana Olhero (professora do DEMaC e membro do CICECO).
“O microdispositivo permite tratar lesões cancerígenas e pré-cancerígenas localizadas nas camadas mais superficiais da pele por hipertermia localizada, evitando a necessidade de excisão cirúrgica”, explica a equipa. “Esta abordagem é possível graças à capacidade das microagulhas magnéticas de aquecer quando aplicado um campo magnético alternado externo”, esclarecem. O princípio é simples: “O recurso à hipertermia localizada, que consiste no aumento da temperatura no local da lesão a tratar para valores entre 39 °C e 46 °C, conduz à morte das células malignas, sem afetar as benignas circundantes”. “Esta estratégia constitui, assim, uma via promissora para conseguir erradicar o cancro de pele localizado nas camadas mais superficiais da pele, com bom resultado cosmético”, concluemFotos UA
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Tendo em vista a proteção dos resultados de I&D desenvolvidos por investigadores da UA, esta tecnologia foi alvo de proteção através de pedido de patente, acompanhado pela equipa especializada da UA, UACOOPERA, tendo este sido concedido recentemente a nível nacional.
No plano interno, a proteção de resultados de I&D é assegurada pela UACOOPERA que, por meio da sua equipa especializada em Propriedade Intelectual, identifica as inovações com potencial de proteção, conduz os respetivos processos e promove a sua valorização e integração na sociedade.
A nova tecnologia foi desenvolvida no âmbito do projeto FlexMicroDerm
– Desenvolvimento de microdispositivos flexíveis à base de microagulhas de biocimento compósito para administração transdérmica de fármacos, liderado por Paula Torres e financiado pela FCT, com o apoio do COMPETE 2020 (POCI-01-0145-FEDER-029274), no âmbito do SAICT – Sistema de Apoio à Investigação Científica e Tecnológica (PTDC/BTM-MAT/29274/2017), projeto este concluído em 2022.
O artigo foi publicado originalmente em Gazeta Rural.