“O dólar não é uma moeda tão boa quanto costumava ser, mas continua a ser melhor do que todas as outras”

image

A Coface apresentou esta terça-feira, 17 de fevereiro, em Paris, o seu habitual relatório de análise de risco para 2026, intitulado de “Momento da Verdade”.

“Chamamos-lhe o ‘momento da verdade’ porque o ano passado foi muito turbulento, com imensa volatilidade, e observámos que a atividade económica se manteve, ainda assim, muito estável em relação a 2024”, explicou Xavier Durand, CEO da empresa que detém a liderança mundial em seguro de crédito e serviços especializados complementares. A Coface, que aproveitou a ocasião para celebrar também o seu 80.º aniversário em França, traçou as linhas gerais do contexto económico mundial dos próximos meses, com todos os economistas a deixar o mesmo aviso: “prevemos tudo isto se não se materializarem mais riscos”.

São, sobretudo, políticos e sociais aqueles que os responsáveis por cada área do globo consideram. Numa apresentação liderada por Ruben Nizard – Diretor de pesquisa setorial e risco político – e por Bruno de Moura Fernandes – Diretor de Macroeconomia –, as principais conclusões são claras: o ano de 2025 foi muito mais tranquilo do que a turbulência política e a guerra tarifária faziam antever; há setores que estão agora em condições melhores para continuar a crescer e está claramente a ser desenhado um novo sistema em termos de globalização.

Mas, ao contrário do que muitos vaticinaram desde a Covid-19, a desglobalização não aconteceu e a Coface atira até um desafio para cima da mesa: vamos manter as portas abertas, e garantir que o tumulto passa com o menor dano possível.

“Foi surpreendente o que aconteceu em 2025, na verdade”, continua Durand. E por isso é que, avisa, “ao entrar em 2026, temos de considerar que os eventos que aconteceram em 2025 ainda podem impactar a atividade económica”.

Nas matérias-primas, os preços da energia e da alimentação baixaram em termos homólogos, e os metais dispararam – “boas notícias para algumas indústrias que nos últimos anos, e sobretudo na Europa, sofreram com a escalada do preço do gás provocada pela guerra na Ucrânia”, salientou Ruben Nizard.

“Os metais industriais dispararam nos últimos dois meses e, para entendermos isso, temos de olhar para a questão da cadeia de distribuição”, continuou o CEO perante uma sala cheia de jornalistas de todo o mundo. “Temos a procura a aumentar – seja para desenvolvimento de modelos de Inteligência Artificial, por via do aumento do investimento em Defesa e em aeronáutica – numa altura em continua a falar-se de transição energética, e temos uma oferta pouco….elástica. Por isso é que temos visto um aumento de preço. E estes metais vão impactar a indústria. Aquilo que prevemos é um ambiente relativamente positivo para a maioria destas indústrias, apesar de tudo”, nota.

Bruno Fernandes, por seu lado, pediu atenção para a reorganização da dinâmica de negócios mundial, que, em resposta às ameaças tarifárias de Trump, não diminuiu. Simplesmente se alterou. “Quando olhamos para a China, vemos que as exportações para os EUA caíram muito. Mas depois olhamos para o Vietname, e vemos que as exportações para os EUA aumentaram. E as importações da China também cresceram, portanto o que percebemos é que os países estão a tentar contornar as tarifas, mas que isso não tem um efeito tão significativo quanto se esperava”, salienta o economista.

Na verdade, a guerra das tarifas tem, até agora, penalizado sobretudo as empresas e os consumidores norte-americanos. “Estimamos que cerca de 90% dos custos tenham sido ou estejam a ser absorvidos pelas empresas norte-americanas”, o quem impactado significativamente, aliás, o desempenho das mesmas. As falências aumentaram, nos EUA, quase 15%, adianta a Coface, no último semestre do ano passado, face a igual período de 2024.

A Coface, que reviu em baixa a avaliação de risco para o setor da alimentação e agricultura nos EUA, em 2026, justifica a decisão com as condições meteorológicas, que tiveram impacto nas culturas, na quantidade das cabeças de gado e, invariavelmente, “no aumento dos preços”, explica Marcus Carias, economista que acompanha o mercado da América do Norte. “Além disso, o problema da falta de mão de obra no setor da distribuição – que não está a melhorar com as políticas migratórias impostas por Donald Trump – causaram uma tempestade perfeita do lado da oferta, no país”, continua.

Ainda assim, facto é que o volume de negócios não caiu significativamente, e que a economia continua a evoluir paulatinamente – puxando, naturalmente, pela economia mundial. Em conjunto com o crescimento da China, de onde se espera um ligeiro abrandamento este ano.

Para Carias, apesar dos sinais de alerta, também não há qualquer dúvida sobre o facto de o dólar continuar a ser a moeda mais valiosa do mundo, não prevendo qualquer alteração nesse campo. “O dólar não é uma moeda tão boa como costumava ser, mas ainda é melhor do que todas as outras”, garante. “temos visto este movimento dos bancos centrais que estão a comprar muito ouro para aumentar as suas reservas, mas não estão a diminuir drasticamente as reservas que têm em dólar”, nota.

Quanto à Europa, terá de continuar a trabalhar numa espécie de terapia de grupo se quiser mesmo afirmar-se como uma alternativa à predominância norte-americana. Isto porque o Velho Continente continua a ser penalizado, considera Bruno Fernandes, pelo facto de haver demasiados interesses nacionais a jogar contra uma abordagem mais concertada no tabuleiro mundial. Em declarações ao Diário de Notícias, este francês com origens portuguesas lamenta que os Estados-membros continuem a colocar os seus benefícios acima de uma visão mais macro, que poderia ajudar a Europa a ganhar força, numa altura em que o equilíbrio de forças está, pela primeira vez em décadas, a ser posto em causa.

Num olhar mais micro, para Portugal, o desafio, acredita o economista, “é acompanhar com atenção o mercado imobiliário, cuja inflação está a dificultar muito a vida das pessoas – apesar de estar a criar muita riqueza para outras. Os números não mentem, o imobiliário e o turismo estão a gerar riqueza. Mas estas coisas, por norma, não duram para sempre. É preciso acompanhar com atenção”, atira em jeito de aviso.

Continue a ler este artigo no Dinheiro Vivo.


Publicado

em

,

por

Etiquetas: