O que nos espera não é bom. É tempo de parar para pensar. E a primeira pergunta que nos devíamos colocar é se faz sentido continuar a incentivar e a financiar culturas como a vinha em lugares extremos, contando com a água dos céus e dos rios. Nunca deu bom resultado desafiar a natureza.
Durante muito tempo, fui contra a rega na vinha. Costumava até citar uma velha máxima de antigamente do Douro, segundo a qual “a única água que a videira deve receber é a do suor dos trabalhadores”. Esta máxima, politicamente incorrecta, é todo um programa, condensando em poucas palavras a dureza da viticultura duriense e o sofrimento dos trabalhadores e exaltando ao mesmo tempo a extraordinária resistência da videira.
A vinha, para produzir bons vinhos, tem que sofrer. Se tiver água em abundância, não precisa de fazer grande coisa. Cria raízes pastadeiras e vive bem assim, quase à superfície. Lança farta descendência e já se sabe que a quantidade é sempre inimiga da qualidade. Pior: um dia que lhe falte a água, não aguenta o embate e morre.
Se for criada com pouca água, a vinha tem que fazer pela vida. Em vez de raízes pastadeiras, vai criar raízes que penetram fundo na terra, em busca da humidade e dos minerais mais ricos. E, como produzirá de acordo com os seus escassos recursos, dará vinhos mais ricos. As vinhas velhas são um bom exemplo.
Mas há limites para o sofrimento. Já vivi anos quentes e secos que me fizeram duvidar da viabilidade da vinha no Douro Superior, por exemplo, onde chove tão pouco como nos lugares mais secos do Alentejo. Lembro-me de um ano, quando ainda não fazia vinho, em que na vindima a vinha parecia uma imensa instalação de cachos pendurados, a hidratar, sem folhas a protegê-los. Era uma imagem deprimente e assustadora, mas na altura as uvas destinavam-se a vinho do Porto e este vinho, erradamente, foi sempre encarado como o destino perfeito para uvas muito maduras.
Não me preocupei em demasia. Porém, quando pensei em fazer vinhos tranquilos, percebi que tinha de deixar as margens do Douro e procurar um lugar mais alto e mais fresco, que vim a descobrir […]
