O governo do Chega

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Com a divulgação de duas sondagens, voltou a conversa das eleições para o ano que vem, com o argumento de que o PS está ansioso por voltar ao governo e as sondagens lhe são favoráveis (na última vez que pensaram com base em sondagens e artigos na imprensa, a AD ganhou 11 deputados, o Chega 10 deputados e o PS perdeu 20).

O assunto não tem grande importância, embora não seja impossível uma nova coligação Chega/ PS para deitar abaixo o Governo (Montenegro, aparentemente, também pensa que é prudente estar sempre preparado para eleições, e governa de acordo com isso).

As hipóteses que poderiam resultar de novas eleições seriam, essencialmente, três (há uma quarta, a AD e a IL terem maioria absoluta, mas é mais remota).

O PS tem uma maioria relativa, forma governo e governa da mesma forma que Montenegro, tentando ir tendo apoio ora da AD, ora do Chega, embora com alguma alteração de orientação política geral (limitada, não me parece de esperar que o PS volte a insistir na política de migração de António Costa, tal como Costa aprendeu com Sócrates a não voltar à irresponsabilidade financeira).

Montenegro tem uma maioria relativa, e a vida segue.

O Chega tem mais um voto que o PSD, ganhando as eleições com uma maioria relativa e, consequentemente, forma governo.

Das duas uma: ou o PSD sofre uma convulsão interna da qual resulta um acordo de governação com o Chega, ou o Chega governa sem acordo de ninguém até ser derrubado pelos outros partidos (pode acontecer que nem consiga ver aprovado o seu programa de Governo e acabe a haver novas eleições, mas parece-me uma hipótese mais remota, é mais racional que o PSD deixe o Chega governar até lhe ser útil derrubar o governo).

O que é interessante neste exercício – bastante inútil, reconheço – é que se se pretender ter uma ideia do que seriam as políticas a executar por um governo do Chega (ou Chega com acordo de governação com o PSD), não se consegue ter nenhuma ideia clara.

O Chega pretende restringir mais a entrada de migrantes, potenciando os efeitos da escassez de mão de obra em alguns sectores (agricultura e construção à cabeça, mas apoio social e saúde logo depois)?

O Chega pretende reduzir a flexibilidade do mercado de trabalho?

O Chega pretende interferir directamente na justiça, ou apresentar uma reforma de fundo do sector?

O que pretende o Chega fazer do Estado?

O que quer o Chega fazer no sector da saúde e da educação?

O Chega pretende manter um equilíbrio orçamental mínimo, ou acha que a dívida pública está em níveis que permitem fazer subir o défice para baixar portagens e subir pensões? 

Note-se, não estou a dizer que o Chega ser governo é uma desgraça para o país, não me parece que o país corra mais riscos com um governo do Chega que os que correu com os governos de Sócrates, só para dar um exemplo (e eu até acho que António Costa foi um pior primeiro-ministro que Sócrates), só estou a dizer que ninguém sabe o que seria e faria um governo do Chega.

Isso é dramático?

Não, na verdade os governos mandam relativamente pouco e o país vai continuando a funcionar, melhor ou pior, mais depressa ou mais devagar, para mim é apenas uma curiosidade, provavelmente uma curiosidade sobre uma coisa bem menos importante que saber se o Irão vai continuar a ter capacidade para financiar, treinar e apoiar exércitos irregulares em todo o Médio Oriente.

O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.


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