Há na nova capital da Guiné Equatorial um dedo português. A Ciudad de la Paz está ser construída numa zona de floresta junto ao rio Wele, no centro leste da parte continental do país segundo um master plan desenhado pelo atelier do arquitecto português Miguel Correia, o IDF – Ideias do Futuro.
A cidade, pensada para 250 mil habitantes, numa área de 84 quilómetros quadrados equivalente à da cidade de Lisboa, está longe de completada – é um projecto gigantesco que implica centenas de milhares de milhões de dólares de investimento –, mas, segundo as informações que vai tendo o arquitecto Miguel Correia, continua a ser construída de acordo com o desenho urbanístico deixado há mais de uma década pela sua empresa.
Em conversa com o PÚBLICO, o arquitecto conta que o convite para desenhar a planta da cidade veio do Governo de Teodoro Obiang no âmbito de uma parceria que tinham naquela altura na Guiné Equatorial com uma das maiores construtoras brasileiras, a Andrade Gutierrez.
Pediram-lhe para desenhar o plano director, bem como alguns edifícios emblemáticos, como a catedral, que o Presidente Teodoro Obiang insistia muito em querer ver construída, talvez a pensar naquilo que o primeiro Presidente da Costa do Marfim, Félix Houphouët-Boigny, mandou fazer na sua terra. Na vila onde nasceu, o homem que governou os marfinenses durante 33 anos construiu uma nova capital, Yamoussoukro, e ergueu uma das maiores igrejas católicas do mundo, a Basílica da Nossa Senhora da Paz.
Além da catedral, o atelier do arquitecto português desenhou ainda uma grande sala de concertos, uma biblioteca e ainda simulou alguns bairros habitacionais, num plano que tardou alguns anos a desenvolver (e terá sido entregue em 2012), implicou muitas viagens ao local e algumas reuniões com o Presidente equato-guineense e com o seu filho, vice-presidente e herdeiro anunciado do poder, Teodorín Obiang.
Desde a entrega do plano director que o arquitecto nunca mais teve nada a ver com aquilo que está a ser construído em Oyala, rebaptizada como Ciudad de la Paz, embora na altura ainda fosse Cidade Administrativa de Djibloho.
O seu plano já previa que um novo aeroporto internacional viesse a ser construído nas proximidades para servir a nova capital, mas nada teve a ver com a obra construída pela mesma Andrade Gutierrez junto à localidade de Mengomeyén e inaugurada em 2012 com o nome do ditador: Aeroporto Internacional Teodoro Obiang Nguema. O que sabe Miguel Correia é que neste, que é o quinto aeroporto internacional, a pista permite a aterragem de qualquer avião comercial actualmente em operação no mundo.
Apesar de ter sido nomeada por decreto presidencial, a 3 de Janeiro, como a nova capital da Guiné Equatorial, a verdade é que muito do plano director desenhado pelo atelier português continua por construir. “É um investimento astronómico que, a ser implementado, deverá levar algumas décadas”, sublinha.
Questionado se seriam os 260 mil milhões de dólares de que se falava na altura, Miguel Correia é peremptório: “Com a exigência de manutenção que traz construir uma cidade na floresta, é muito mais! A natureza ali é muito poderosa.”
“Não é propriamente uma coisa muito fácil de fazer”, acrescenta. Por isso, também, a baixa densidade populacional pensada no plano inicial, com apenas um quarto de milhão de habitantes para a mesma área que a capital portuguesa, onde chegaram a morar 900 mil pessoas.
Tal como a Yamoussoukro de Houphouët-Boigny, a única cidade da Costa do Marfim com um plano urbanístico personalizado, também a Ciudad de la Paz de Obiang, inclui no seu plano director palácio presidencial, sede do Governo, ministérios, embaixadas. O que poderá acontecer, como aconteceu com a capital marfinense, é virar uma cidade relativamente fantasma.
Na Costa do Marfim, ainda hoje, mais de 40 anos depois de se ter tornado a capital por decreto presidencial, muitos das instituições públicas e políticas seguem em Abidjan, a antiga capital e principal centro económico do país. Trocar a cidade grande à beira-mar por uma pequena cidade administrativa no interior não conseguiu convencer muita gente.