Produtores de Serpa criticam acordo UE/Mercosul

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A Associação de Produtores da Região de Serpa (APROSERPA) critica o acordo comercial assinado, no sábado, 17, entre a União Europeia e o Mercosul e pediu que os eurodeputados portugueses votem contra a proposta.

Em comunicado, a APROSERPA manifesta a sua “rejeição liminar” aos termos do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.

“O que está em cima da mesa é uma troca de interesses industriais pelo sacrifício da agricultura do Sul da Europa”, lê-se no comunicado, onde a associação identificou “cinco ameaças existenciais que os eurodeputados portugueses não podem ignorar no momento do voto no Parlamento Europeu.

De acordo com a APROSERPA, o acordo representa um “ataque triplo à pecuária”, uma vez que “ataca a viabilidade das explorações [pecuárias] através de uma ‘engenharia comercial’ que destrói o equilíbrio da carcaça”.

Em causa está, por exemplo, o facto de os países do Mercosul não irem “exportar a carcaça inteira” de bovinos, preenchendo a quota de 99.000 toneladas “exclusivamente” com cortes “de alto valor”.

“Ao importar 99 mil toneladas apenas de cortes nobres, a UE está, na prática, a importar o equivalente ao valor premium de milhões de animais, saturando o mercado da restauração e hotelaria”, o que “retira ao produtor alentejano a capacidade de valorizar o seu animal, forçando a venda abaixo do custo de produção”, explica.

E no caso dos suínos, a entrada de 25.000 toneladas de carne “com taxa aduaneira de 0% cria um ‘preço de referência’ artificialmente baixo, assente em custos de produção sul-americanos impossíveis de replicar na Europa”, lê-se no comunicado.

A APROSERPA afirma ainda que o acordo EU/Mercosul também “vem colocar uma ‘lápide’ sobre a produção de cereais no Alentejo, ao blindar juridicamente a entrada de milho sul-americano”, o que terá também “consequências diretas de proteção civil”.

“A inviabilidade económica da pecuária extensiva e dos cereais levará ao abandono imediato das terras e ao fim da gestão do combustível pelo pastoreio”, pelo que “aprovar este acordo em Bruxelas é subsidiar o aumento dos incêndios rurais em Portugal na próxima década”, argumenta.

A associação alentejana critica igualmente “a mentira das salvaguardas”, alegando que “o produtor terá de falir primeiro para ser ajudado depois”.

Por fim, a APROSERPA afiança que o acordo “é moralmente inaceitável e um atentado à segurança alimentar dos portugueses”, ao autorizar a entrada “de carne produzida com hormonas ou antibióticos promotores de crescimento (banidos na Europa desde 2006) e culturas com pesticidas proibidos”.

Além disso, “a fiscalização por amostragem nos portos é insuficiente” e, por isso, a UE “não pode garantir ao consumidor a inexistência de resíduos tóxicos nos alimentos importados”, reforça.

Tudo isto leva a APROSERPA a pedir “responsabilidade política” aos eurodeputados portugueses, considerando que o seu “silêncio” no parlamento europeu equivalerá a “uma cumplicidade com o fim do mundo rural”.

“Os eleitos por Portugal vão alinhar com os interesses da indústria automóvel alemã e aprovar este acordo, ou vão usar o seu voto para travar esta concorrência desleal?”, conclui a associação.

O acordo comercial entre a UE e o Mercosul foi assinado, no sábado, 17, em Assunção, na capital do Paraguai, criando assim a maior zona de livre-comércio do mundo após 25 anos de negociação.

O acordo permitirá eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92% das vendas sul-americanas para a Europa, abrindo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores.

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