autarquias com menos incêndios

“Propusemos um prémio para as autarquias que têm menos incêndios. Não passou”

Em 2003, Tiago Oliveira sobreviveu a um grande incêndio em que morreram dois camaradas bombeiros, chilenos. Hoje é o presidente da Agência para a Gestão dos Incêndios Florestais e não esconde o desalento com a “eternidade” que demora a mudar mentalidades e políticas públicas que reduzam os fogos. É quem vai coordenar a Comissão que vai investigar os grandes incêndios deste ano.

O balanço provisório dos incêndios na União Europeia (UE) indica um novo recorde nesta altura do ano, com mais de 660 mil hectares ardidos desde janeiro, sendo Portugal o 3.º país na lista. Da sua longa experiência, o que mais o incomoda que ainda não esteja feito nesta altura para que não voltasse a acontecer aquilo a que temos assistido?

Se queremos resultados diferentes, temos de mudar a forma como trabalhamos. Isto significa, embora o sistema sendo complexo, que não tem de ser um sistema complicado. Mas este é um país que demora a adotar o caminho da transformação e, em vez de andarmos a passo, temos de correr.

As alterações climáticas estão a evoluir a grande velocidade e a floresta ou se adapta por si, e o fogo tem um papel relevante de severidade, ou ajudamos a floresta a adaptar-se para que o fogo, quando acontece, seja menos severo. O que mais me tem custado neste caminho é, primeiro, a resistência à mudança em relação às políticas públicas.

Pode dar exemplos?

Por exemplo, o tema dos aviões, o tema do SIRESP, o tema do incendiarismo, são questões complementares, não são as fundamentais. As fundamentais estão na distribuição do valor da riqueza da floresta que não pagamos aos proprietários, estão no oxigénio que ela presta, na qualidade de água que filtra e o país não paga nada disso.

Neste incêndio na Serra da Estrela, se não forem tomadas medidas sérias para evitar o processo de erosão, a qualidade da água dos habitantes de Lisboa e do Porto vai sair prejudicada.

Neste incêndio na Serra da Estrela, por exemplo, se não forem tomadas medidas sérias para evitar o processo de erosão, a qualidade da água dos habitantes de Lisboa e do Porto vai sair prejudicada.

Não estamos a pagar a quem permite a gestão florestal o verdadeiro valor que a floresta produz e, portanto, os proprietários abandonam. Já dissemos isto várias vezes e as coisas não avançam.

A solução é socioeconómica, reside no comportamento das pessoas e nas políticas que levam a que os proprietários reajam a esses estímulos. E isso parece que demora uma eternidade.

Se já fizeram essas propostas porque é que essas medidas não são tomadas?

Porque é preciso orçamento que vai “roubar” dinheiro a outras políticas, é preciso equilíbrio político para consertar as visões de conservação e produção, e é preciso um consenso alargado no Parlamento. Essas circunstâncias demoram a ser conseguidas, mas são questões estruturais. Acaba por se perder demasiado tempo nas questões dos aviões ou do SIRESP.

Depois, a comunicação social também acaba por dar muito destaque ao combate aos incêndios e à prevenção nos meses de verão, mas a partir de outubro já ninguém quer falar nisso.

De acordo com o relatório da AGIF relativo a 2021, nunca houve tanto investimento em prevenção como há agora (46% para a prevenção e 54% para a supressão, quando em 2017 apenas 20% para a prevenção). Porque é que isso não está a ter impacto visível este ano?

Uma das coisas sobre as quais temos vindo a refletir, é que o conhecimento injetado no sistema, ora por formação, ora por técnicos formados, está a demorar muito tempo a chegar à operação. Certamente que temos de avaliar melhor o porquê da dificuldade em adotar melhores práticas de combate e prevenção.

Talvez valesse a pena perguntar ao ICNF quantas faixas de acessos fizeram nos últimos três anos na Serra da Estrela.

Neste incêndio da Serra da Estrela, não querendo quantificar, mas havia prevenção, é uma área protegida. Talvez valesse a pena perguntar ao ICNF quantas faixas de acessos fizeram nos últimos três anos na Serra da Estrela.

Estas faixas são de acesso, mas também de distanciamento para controlar melhor o fogo e têm áreas de mosaicos. A pergunta é, porque é que isso não foi aproveitado no combate?

E não foram aproveitadas?

Algumas foram, outras não, mas penso que para o sistema evoluir é necessário reconhecer que as receitas do passado não servem. Se queremos melhores resultados, temos de melhorar os processos.

Por exemplo, fizemos um trabalho sobre o regime de incêndios, em que identificámos claramente as freguesias em que a atividade pastorícia usava o fogo para gerar de novo pastagens.

Essas freguesias têm de ter um programa de acompanhamento dos pastores e todos sabemos que isso é relevante. Esse programa existe, mas não é prioritário, e devia ser. No entanto, as pessoas querem é os aviões.

Não há nenhum programa de televisão em que se veja incêndios em que não haja alguém a dizer que os helicópteros e aviões foram muito importantes.

Mas os meios aéreos são importantes de qualquer forma…

Os meios aéreos ajudam, é certo, mas para serem eficazes têm de ser operados de forma muito correta. E a coordenação entre os meios aéreos e terrestres é fundamental, porque a partir do momento em que não há ninguém no chão com enxadas, o meio aéreo só está a atrasar.

Quando é de noite ou não há condições atmosféricas para os meios aéreos, o que tem de se fazer é pousar os aviões e preparar a noite.

Ou seja, usar os meios mecânicos, usar as enxadas e alguma água para levar o fogo à extinção. E esta mudança tem de ser operada por uma cultura de organização, mas vai demorar tempo.

Todos os anos há mais investimento e mais meios, mas continuamos a assistir à preocupação dos autarcas a pedir mais meios e ao desespero das populações. Esta perceção de que os meios são insuficientes é legítima?

Acho que algumas coisas mudaram e agora com a avaliação que vamos fazer de um conjunto de incêndios, certamente vamos deparar-nos com muitas habitações que, embora tendo sido ameaçadas, não se perderam porque as limpezas foram feitas.

Para essas casas serem protegidas, não é preciso um camião, basta uma pequena viatura. Ou seja, se apostarmos na prevenção, não vão ser precisos tantos meios e não é preciso apostar tanto no combate.

Claro que todos os autarcas ou todos os populares querem ter um […]

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