Ao chegar à época mais quente do ano, a região já atravessou longos meses de escassez de água. Agricultores poupam o que podem na rega, pastores têm dificuldade em encher o estômago aos animais. Autarquias ponderam interromper abastecimento de água durante a noite. Não há memória de um ano como este.
Desde os 13 anos que Arsénio Moura da Eira anda para trás e para a frente com cabras e ovelhas agrupadas em rebanho. Hoje, tem quase 60 anos, idade que lhe dá uma certa autoridade para fazer comparações. Antes, “elas espalhavam-se e comiam. Agora está tudo seco”, constata o pastor de chapéu na cabeça e T-shirt branca trilhada nas calças, encostado ao muro de pedra da principal rua de Soutelinho do Mezio, em Vila Pouca de Aguiar. A mulher, Maria de Fátima Moura da Eira, também ela com uma vida de pastoreio, confirma: “Temos os lameiros”, onde crescem os pastos, “todos sequinhos”.
“E o pior é daqui para a frente”, completa ao lado Albano Fernandes, também pastor, de 82 anos, que cuida de dois rebanhos com mais de 300 ovelhas. Arsénio detalha: “Agora, é que dói. Dói porque não vai haver pastos e o feno vai estar caríssimo.” A situação de seca que se arrasta há meses em Trás-os-Montes e se agravou no último mês pesa nos ombros de quem tem explorações de animais ou vive da agricultura. “Não choveu e o feno não medrou”, conta Albano, levantando o tom de voz. Diz também que emprega adubo com mais cerimónia, uma vez que os sacos passaram de nove euros para “17 ou 18 euros”. A terra costumava dar-lhe 4 mil fardos de feno numa temporada, uma ajuda preciosa para alimentar os rebanhos. Este ano, estima, deve ficar pelos 600 ou 700, estima. A ração para os anhos também subiu de preço.
A seca vem carregar a situação de quem já tem de lidar com a subida dos custos dos fertilizantes, da alimentação dos animais, além de estar também a contas com o aumento dos combustíveis. Arsénio diz que já teve de pedir a fiado na cooperativa para alimentar os seus 140 animais. “Já tenho lá o calote, em Vila Pouca, e já me deram lá um recado, que não me dão mais nada a fiado”, desabafa. Face às despesas, equaciona diminuir o número de animais do rebanho.
Albano queixa-se de que tarda a chegar o apoio prometido pelo Governo, que anunciou o pagamento antecipado de 500 milhões de euros, para que agricultores pudessem fazer face à escalada de preços causada pela guerra na Ucrânia. Assim, disse em Abril a ministra da Agricultura e da Alimentação (MAA), Maria do Céu Antunes, os agricultores deviam receber até Maio o que iriam receber em Outubro. Se esse dinheiro chegasse, dava para ir pagando as dívidas, diz Arsénio, e ir à cooperativa “com a cara limpa”. “A maior parte deles [dos pastores] já tem vendido os rebanhos e, se continuarmos com este problema, as nossas vão pelo mesmo caminho”, prevê, com o rosto carregado.
O cenário traçado pelo dirigente da Associação de Agricultores e Pastores do Norte, João Morais, não é mais tranquilizador. Diz que, mesmo quem tenha capacidade de comprar agora alimento para os animais, vai chegar a um ponto em que vai deixar de acontecer, um ponto que explica com a escassez e consequente aumento de preços.
Governo promete pagar esta semana
A antecipação do pagamento, diz Albano, já dava para “governar a vidinha” e enfrentar os dias secos que já aí estão e prometem prolongar-se. Em Maio, 1,4% do território continental estava em situação de seca extrema, mostra o boletim climatológico de Junho Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Durante o último mês, a situação agravou-se e a seca extrema alargou-se a 28,4% do país, atingindo uma grande mancha de Trás-os-Montes.
Olhando para o mapa da percentagem de água no solo, verifica-se que grande parte das terras transmontanas está em “ponto de emurchecimento permanente”, o que significa que as plantas já não conseguem absorver água suficiente para recuperar a turgidez. Com os meses mais quentes do ano ainda […]
