Seca de Inverno “épica” está a criar situação desoladora para os agricultores nos EUA

A família de Justin Perry cultiva as colinas onduladas do panhandle do estado norte-americano de Nebraska há quatro gerações, mas nenhuma delas se recorda de um Inverno tão quente e seco como este. Não houve chuva constante para embeber suavemente o solo nesta região do noroeste do estado. Nenhum manto de neve para isolar os campos e as pastagens. Apenas ventos quentes e secos que varreram a paisagem, sugando a humidade de cada centímetro de terra exposta.

Agora chegou a Primavera, acompanhada de previsões de seca prolongada que podem pôr em risco o trigo de Inverno e a sementeira de Verão de Justin Perry. Uma onda de calor extraordinária em Março fez subir as temperaturas a quase 32 graus Celsius, ressequindo ainda mais o solo. E, a norte, Perry consegue ver fumo a elevar-se de incêndios que batem recordes e que já consumiram centenas de milhares de hectares de ranchos e terras agrícolas.

“Isto está a parecer mesmo muito mau”, disse Perry. “Pode ser um daqueles cenários que destrói alguns de nós.”

Em todo o território contíguo dos Estados Unidos, agricultores como Justin Perry estão a ser atingidos pelo período de Setembro a Fevereiro mais quente e terceiro mais seco de que há registo. Em 31 de Março, última data para a qual há dados disponíveis, quase 60% do território dos EUA encontrava-se em situação de seca, segundo o Monitor de Seca dos Estados Unidos.

Com excepção das vastas explorações de milho e soja do Midwest, as condições severas abrangem muitas das regiões que produzem os alimentos do país — desde o amendoim no Sul ao trigo e ao gado nas Grandes Planícies, a leste das Montanhas Rochosas, passando pelos produtos hortofrutícolas no Sudoeste.

Se a combinação de escassez de precipitação e calor sem precedentes se mantiver, poderá ter efeitos em cadeia no abastecimento alimentar dos EUA, estimando-se que alguns produtos, como a carne de bovino, venham a registar uma forte subida de preços.

“Estamos a entrar na época de crescimento e na Primavera com níveis de humidade do solo nos mínimos históricos ou perto disso em todo o país”, disse Brad Rippey, meteorologista do Departamento de Agricultura. “A situação é grave e está a piorar rapidamente.”

Ameaças às culturas e ao gado

Algumas das condições mais secas registam-se no Sul, onde a época de crescimento já está em pleno curso. Mais de três quartos das áreas de produção de cana-de-açúcar, 83% das áreas de produção de arroz e nada menos do que 96% da região produtora de amendoim estão assoladas pela seca.

O calor invulgar do Inverno, pontuado por uma geada pouco habitual em Fevereiro, causou também danos em muitas árvores de fruto na região. Estas ondas de frio ocasionais, provocadas por ondulações na corrente de jacto que permitem a entrada de ar árctico pelo sul, tornaram-se mais frequentes nas últimas décadas, segundo Brad Rippey.

“Quando há ondas de calor precoces que aceleram o desenvolvimento das culturas, o ar frio está à espreita, e basta pouco para o desencadear”, disse o meteorologista.

As condições extraordinariamente quentes e secas são um mau presságio para o celeiro do país, nas Grandes Planícies. O início da Primavera é tipicamente a altura em que os agricultores aplicam fertilizantes ao trigo de Inverno — um cereal resistente que é semeado no Outono e colhido no Verão. Mas a gravidade da seca deste ano leva os produtores a questionar se devem continuar a investir numa cultura que pode não sobreviver, ou reduzir as perdas e replantar outra coisa. Entretanto, um solo extremamente seco dificulta a germinação de novas sementes.

“É mais uma aposta, francamente”, desabafa o produtor Justin Perry.

Como o trigo é uma mercadoria transaccionada a nível global, a quebra da colheita nas Planícies é apenas um pequeno factor no custo do pão, explicou Jennifer Ifft, professora de economia agrícola na Universidade do Estado do Kansas. Os preços não vão necessariamente oscilar em resultado de uma má estação nos EUA. Outros factores globais, como a invasão da Ucrânia pela Rússia e os preços elevados dos combustíveis decorrentes do conflito no Médio Oriente, também podem ter um efeito poderoso nos custos.

Mas os americanos vão provavelmente sentir os efeitos da seca nas compras de carne de bovino, produzida maioritariamente a nível interno. O número de cabeças de gado criadas nos Estados Unidos já é o mais baixo desde os anos 1950 — consequência de um período de seca em 2022-2023 que reduziu as pastagens e fez subir os preços do feno nas Altas Planícies.

Este ano, segundo o Departamento de Agricultura, 64% do efectivo bovino dos EUA é afectado pela seca, bem como a maior parte do feno e da luzerna (alfafa) utilizados na alimentação animal. Isto não dá aos criadores razões para reconstituir os seus efectivos e pode levá-los a vender ainda mais animais — o que se traduzirá em preços mais altos nas superfícies comerciais, disse Ariel Ortiz-Bobea, economista da Universidade de Cornell.

O preço da carne de bovino nos EUA já aumentou 14,4% desde Fevereiro de 2025 e prevê-se que suba mais 10% até ao final do ano. Justin Perry, cujas pastagens alimentam o seu rebanho de 100 vacas e o gado que recebe de outros agricultores, disse que a sua erva esgotada pela seca representa “um problema matemático grave”.

“Mudei a minha mentalidade no que respeita ao gado — deixei de me concentrar em quantos vitelos consigo criar e vender, e passei a focar-me em quanta erva consigo fazer crescer”, disse.

Condições de seca nas explorações do Oeste

Mais a oeste, onde a maioria das terras agrícolas é irrigada, é o degelo acelerado dos mantos de neve nas montanhas que mais preocupa os produtores. A quantidade de humidade armazenada na neve — uma métrica conhecida como “equivalente em água da neve” — já estava próxima de mínimos históricos quando uma enorme cúpula de calor histórica atingiu grande parte da região em Março. Essa onda de calor causou uma “queda abrupta” nos mantos de neve de montanha, explica Jason Gerlich, coordenador regional do sistema de alerta precoce de seca da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).

Nas montanhas Cascade, no noroeste do Pacífico, 76 centímetros de equivalente em água da neve desapareceram em questão de dias. A bacia dos rios Arkansas-White-Red, que se estende do Colorado até ao rio Mississippi, contém apenas 8% da humidade média do seu manto de neve.

“Simplesmente não há anos comparáveis a este”, diz Jason Gerlich.

Estas condições apresentam as marcas inconfundíveis das alterações climáticas provocadas pelo ser humano, dizem os cientistas. As temperaturas mais elevadas permitem que a atmosfera retenha mais vapor de água, retirando humidade dos solos e das plantas. Este fenómeno provoca períodos de seca mais longos e intensos, bem como tempestades mais violentas que despejam grandes quantidades de chuva mais depressa do que a paisagem consegue absorver.

Os efeitos poderão ser particularmente graves para as explorações irrigadas, que representam a maior parte do consumo humano de água no Oeste americano. A água na região é gerida por ordem de antiguidade — quem obteve mais recentemente os direitos de uso da água é o primeiro a perder o acesso em períodos de seca.

Na bacia do rio Yakima, no estado de Washington, que enfrenta agora um recorde de quarto ano consecutivo de seca, quem tiver direitos de utilização de água posteriores a 1905 receberá apenas 44% da sua dotação habitual, segundo um comunicado de Março do Gabinete de Recuperação dos EUA. Os detentores de direitos mais recentes noutros rios, incluindo o muito disputado Colorado, poderão enfrentar cortes semelhantes nos próximos meses.

A antecipação desses cortes está a afectar o planeamento dos agricultores do Oeste para o ano, explica Lauren Ris, directora executiva do Conselho de Conservação da Água do Colorado.

“Quem sabe que está na mira provável de cortes está a começar a ponderar operações que impliquem deixar campos em pousio, não plantar alguns hectares, ou apostar em culturas de ciclo mais curto para aproveitar a água enquanto a há”, descreve.

Os produtores de produtos hortofrutícolas no Arizona, que detêm alguns dos direitos de utilização mais recentes no rio Colorado, poderão enfrentar cortes de 30 a 50% do seu fornecimento habitual. Estes agricultores fornecem cerca de 90% das hortaliças de folha consumidas nos EUA entre Novembro e Abril.

“Os impactos de uma seca aqui não ficam pela fronteira do estado”, afirma Lauren Ris.

As consequências para os agricultores e os preços

O Serviço Meteorológico Nacional prevê que estas condições quentes e secas persistam ou se agravem em grande parte do Sul e do Oeste nesta Primavera. Para os agricultores, as pressões da seca tendem a ser agravadas pela guerra com o Irão, que fez disparar os preços dos combustíveis e dos fertilizantes.

“Estamos à mercê do tempo, dos mercados, da geopolítica”, disse Jennifer ​Ifft, da Universidade do Estado do Kansas. “É como levar um pontapé quando já estamos no chão.”

A maioria dos agricultores norte-americanos está bem coberta por seguros de colheita, que podem funcionar como rede de segurança durante uma ou duas estações difíceis, acrescentou. Entretanto, a complexidade do mercado alimentar global pode amortecer os consumidores face a subidas de preços induzidas pela seca.

Mas os preços persistentemente elevados da carne de bovino ilustram as consequências de períodos de seca prolongados e repetidos, explica o economista Ariel Ortiz-Bobea. Se os agricultores suportarem demasiados maus anos consecutivos, poderão alterar as suas práticas — ou cessar a produção por completo.

Os efeitos da seca nos EUA já se reflectem nos preços internacionais do trigo, que subiram 4,3% no último mês, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. O aumento das temperaturas globais tornará os padrões meteorológicos devastadores muito mais frequentes, dizem os investigadores.

No Nebraska, Justin Perry descreve que a sua família tem procurado lidar com os preços elevados e o clima adverso adoptando práticas mais sustentáveis. Usam menos fertilizantes em culturas como o trigo e o milho e deixaram de lavrar o solo para ajudar a preservar a sua humidade.

“Estamos a fazer o nosso melhor para produzir um abastecimento alimentar seguro e saudável”, afirma. “Mas estou a ver cada vez menos oportunidades de rentabilidade, quanto mais tempo isto se prolongar.”


Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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