Tribunal ordena aos Países Baixos que protejam a ilha de Bonaire da crise climática

Um tribunal de Haia determinou, nesta quarta-feira, que os Países Baixos têm de adoptar metas vinculativas de redução de emissões de gases com efeito de estufa para proteger a ilha de Bonaire, no sul das Caraíbas. A decisão obriga o Estado holandês a elaborar, no prazo de 18 meses, um plano climático específico para este território ultramarino, cuja vulnerabilidade aos efeitos do aquecimento global tem sido ignorada pelas políticas nacionais.

O caso foi interposto por residentes de Bonaire com o apoio da Greenpeace, sendo considerado por especialistas em litigância climática uma das primeiras tentativas de aplicar, a nível interno, as obrigações decorrentes não só da decisão climática europeia de 2024, mas também do parecer do Tribunal Internacional de Justiça emitido no ano passado.

O tribunal concluiu que os planos climáticos adoptados pelo Governo dos Países Baixos não contemplam as necessidades e riscos específicos das Caraíbas Holandesas, nem oferecem protecção adequada às suas populações. Essa omissão, sustentou o juiz Jerzy Luiten, constitui uma violação dos direitos humanos dos habitantes de Bonaire e traduz um tratamento discriminatório face aos residentes na Europa continental.

“Não existe uma boa razão para que, para os habitantes de Bonaire, que serão atingidos pelas alterações climáticas mais cedo e de forma mais severa, as medidas previstas sejam mais tardias e menos sistemáticas”, afirmou o juiz Jerzy Luiten, citado pela Reuters.

Legal experts say ⁠the ‍case, brought by environmental group Greenpeace on behalf of Bonaire residents, is one of the first to test climate obligations on a national level set in a landmark 2024 European climate ruling and last year’s influential World Court advisory opinion.

A ministra para o Clima, Sophie Hermans, disse que o Governo ia analisar cuidadosamente a sentença, que poderá ser alvo de recurso. Mas, enquanto acontece essa análise, será preciso começar já medidas.

“É uma vitória fantástica para o povo de Bonaire, mas também para todos nós, porque o Governo dos Países Baixos tem de se esforçar mais para travar a crise climática e de facto proteger as pessoas que já estão a viver com os seus efeitos”, afirmou a consultora legal da Greenpeace Eefje de Kroon.

Cidadãos de segunda

Jackie Bernabela, uma das residentes envolvidas no processo, chorou ao ouvir o veredicto. “Já não somos cidadãos de segunda classe. (Temos) igualdade. Estou muito feliz”, declarou aos repórteres à porta do tribunal, citada pela mesma agência.

O processo pretende também que os Países Baixos antecipem para 2040 a meta de zero emissões líquidas (neutralidade carbónica), uma década antes do calendário actualmente previsto.

Para os queixosos, a urgência é uma questão não só de subsistência, mas também identitária: além das secas que comprometem a produção agrícola, a subida das águas ameaça destruir cabanas de escravos, localizadas na orla costeira, que constituem património histórico e cultural da ilha.

Durante as audiências de Outubro, os queixosos descreveram o impacto crescente do calor extremo, das secas prolongadas e da subida do nível médio das águas do mar numa ilha árida.

“Estamos a sucumbir aos efeitos das emissões de gases com efeito de estufa, para as quais pouco contribuímos”, afirmou então ao tribunal o agricultor Onnie Emerenciana, sublinhando que a mudança climática afecta de forma desproporcionada os idosos, os mais pobres e as actividades agrícolas.

Acção climática como direito

O advogado dos queixosos, Michael Bacon, defendeu que a acção climática não pode ser encarada como simples arbitragem política, mas como um imperativo legal. “Uma política climática eficaz não é uma escolha política, mas um dever e um direito”, disse Michael Bacon aos juízes no ano passado.

Esta decisão reforça a tendência crescente de residentes de territórios vulneráveis recorrerem à justiça para obrigar Estados a protegerem comunidades muito expostas, mas pouco responsáveis pelas emissões globais (apesar de desproporcionadamente afectadas pelos efeitos dos fenómenos climáticos extremos).

A ilha de Bonaire, no sul das Caraíbas, integra desde 2010 o mapa político-administrativo dos Países Baixos como município especial, após o desmantelamento das Antilhas Holandesas. Com apenas 288 km2 e um clima árido dominado por palmeiras, recifes de coral e extensas praias de areia branca, o território mantém uma população superior a 24 mil habitantes, todos cidadãos dos Países Baixos.

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