Só a fruta que tem bicho é que lhe mostra que a fruta não foi encharcada em pesticidas. O bicho é a garantia de qualidade. O bicho tem bom gosto. O bicho não faz outra coisa senão escolher fruta. O bicho é um viciado em qualidade. E antes que pense que o bicho é só um pequeno gastrónomo, pergunte-se quem é que fez o apuramento das melhores variedades? Foram as caganitas dos passarinhos onde se embrulharam as sementes das frutas mais doces e nutritivas.
É uma estranha sensação, esta de ser Verão e de ver montanhas de pêssegos em todo o lado. Por onde quer que eu ande, há toneladas de pêssegos por comprar. São todos muito bonitos, com as cores certas e os tamanhos certos e os preços são muito baixos, mas ninguém os compra. Porquê? Porque já os compraram. Já caíram no engodo. Já descobriram que não prestam. São doces e são molhados, como os pêssegos têm de ser, mas falta-lhes um irritante pormenor: saber a pêssego. Não sabem a pêssego. Não prestam porque não sabem àquilo que dizem ser. Se nos vendessem sal como se fosse açúcar e usássemos esse sal para fazer um arroz doce, com que cara ficaríamos?
Nas fotografias ficam bem. E dão jeito: pode-se usar sempre a mesma velha imagem de pesseguinhos perfeitos em todos os folhetos que se fizerem ao longo das décadas. Se calhar, o ditado mais pernicioso dos tempos em que vivemos é “os olhos não comem”. Tinha graça dizer isso antes de pegar a praga do Instagram. Mas já se esqueceu o significado da frase e é preciso ser-se um desmancha-prazeres para lembrá-lo. Antes do mais, é o “também”. Os olhos também comem. Porque não comem. Apenas influenciam as partes que comem. Se uma coisa tem bom aspecto, dá mais vontade de comê-la. Não dá mais vontade de vê-la, como parece ser a perversão contemporânea.
Porque é que julga que hoje se pode mexer na fruta e escolhê-la à vontade? Porque não interessa nada: a fruta é toda igual, é concebida e tratada desde a semente até ao carrinho de compras para ser toda igual.
Se formos comprar fruta a um mercado de aldeia que não seja a fingir, ainda há muitos produtores que não deixam escolher a fruta. Ainda esta semana levei um ralhete: “tem de ser a eito, doutor, tem de ser a eito!” Isto porque numa árvore normal, que não tenha […]
