
Quem me lê sabe que estou sempre a falar de uma proposta (co-pagamento da gestão de sub-bosque e matos a quem o fizer), e que defendo outra proposta que desenvolvo menos porque não sei o suficiente sobre combate ao fogo florestal (a separação das funções de protecção civil e combate ao fogo florestal, com a profissionalização séria dos bombeiros florestais, ligando-os à gestão que toda a sociedade faz ao longo do ano).
Agora, ao ouvir Cecília Meireles a dizer que enquanto não se fizer o cadastro não se resolve nada da gestão florestal, no fundo subscrevendo a tese de que são os problemas de propriedade que impedem o retorno do investimento, invertendo as reais relações de causa e efeito – é a falta de retorno da gestão que cria os problemas de propriedade – que percebi claramente o problema profundo de literacia florestal e de ecologia do fogo que temos (poderia ter concluído isso do deprimente debate sobre fogos na Assembleia da República, até por conhecer o opúsculo “o problema das carnes”, que reúne intervenções na Assembleia Nacional em meados do século XX, o que me permite ter bem clara a perda de compreensão do mundo rural na sociedade).
É verdade que ser Cecília Meireles, por quem tenho um profundo respeito intelectual e inveja da sua capacidade política, me terá ajudado a não reagir como reajo a não sei quantas pessoas que falam sobre o assunto, isto é, encolhendo os ombros e lembrando-me de que não se pode esperar das pessoas mais do que aquilo que podem dar.
Alguém comentava que é impressionante como jornalistas com trinta anos de acompanhamento de fogos florestais, mas também políticos, técnicos etc., continuam agarrados a certezas sem qualquer base factual, como as histórias dos eucaliptos e pinheiros, de incendiários, falta de ordenamento, da impresivibilidade dos ventos, etc., etc., etc..
Os relatórios técnicos, as reformas florestais só comparáveis ao que fez D. Diniz, os Planos de Acção para as Florestas, contribuem para isto ao incluir sempre um sem número de medidas que permitem a qualquer pessoa encontrar nesses documentos pelo menos um parágrafo que justifica os seus preconceitos sobre o que é preciso fazer, mas sem que se perceba o que é verdadeiramente importante e o que são questões acessórias.
Como disse, eu deixei-me desse ecumenismo técnico, e concentro-me em duas coisas: pagar parte da gestão de combustíveis a quem a faz, separar e profissionalizar o combate florestal da protecção civil, tudo o resto não me interessa e acho que só serve para perder tempo e recursos.
Hoje cheguei à conclusão de que há uma terceira medida que deveria ser adoptada, para combater a iliteracia sobre gestão do fogo: mudar o formato dos briefings sobre fogos, do actual formato em que ninguém fala de fogos e todos falam de meios, para um formato que pode ser copiado de grande parte dos briefings dos serviços americanos correspondentes, em que se fala de cada fogo, descrevendo a situação no momento, o que se espera que venha a acontecer nas horas seguintes, avaliando impossibilidades e oportunidades e descrevendo o que vai ser feito em cada circunstância, para que se consiga ir gerindo o fogo até que seja possível reconduzi-lo a limiares de extinção.
Se quiserem é a diferença entre ter Anthimio de Azevedo a explicar o boletim meteorológico ou ter a estagiária mais gira a dizer se chove no dia seguinte, o primeiro aumenta o nosso conhecimento sobre o mundo e a forma como funciona, a segunda entretém-nos com informação básica.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.