
A ironia meteorológica na Europa não poderia ser mais cruel neste momento. Enquanto o território português lida com alertas de mau tempo, rios a transbordar e solos saturados pela chuva persistente, no outro extremo do continente vive-se o drama oposto. Um popular destino turístico da União Europeia está a braços com uma crise hídrica sem precedentes, obrigando as autoridades a impor cortes imediatos no consumo para evitar o desastre total.
O contraste é chocante: aqui a água sobra e causa estragos, lá a falta dela ameaça a sobrevivência. O governo de Chipre lançou um apelo dramático e inédito à população, exigindo uma redução de 10 por cento no consumo doméstico de água. Na prática, pede-se aos cidadãos que passem menos dois minutos por dia debaixo do chuveiro ou com a torneira aberta.
A informação é avançada pela Executive Digest, publicação de economia, que classifica esta como a pior seca registada no país desde que há medições hidrológicas, iniciadas em 1901. O cenário é de tal forma crítico que o executivo cipriota teve de avançar com um pacote de emergência de 31 milhões de euros antes mesmo do pico do verão.
Reservatórios no “fundo do poço”
Os números revelam uma realidade assustadora para quem planeia férias na ilha. Em fevereiro, mês habitualmente húmido, as reservas de água situavam-se apenas nos 13,7 por cento da capacidade total. Este valor representa um colapso face aos 26 por cento registados no ano anterior, que já eram considerados alarmantes.
Indica a mesma fonte que a situação mais simbólica ocorre na barragem de Kouris, a maior do país. Ali, o nível da água desceu para uns dramáticos 12,2 por cento, fazendo reaparecer a igreja de São Nicolau. O templo, normalmente submerso, está agora rodeado por terra seca e vegetação morta, uma imagem que serve de aviso visual para a gravidade da crise.
“Cada gota conta” para sobreviver
As autoridades não poupam nas palavras para descrever a urgência. Eliana Tofa Christidou, diretora dos Recursos Hídricos, avisa que “os tempos são críticos e cada gota conta”, seja no duche, a lavar os dentes ou na máquina da roupa. O objetivo é baixar o consumo médio para 140 litros diários por pessoa.
Explica a referida fonte que o consumo dispara nas zonas mais quentes e turísticas, chegando aos 500 litros por dia. Este gasto é insustentável num país onde a precipitação caiu 15 por cento no último século, enquanto a necessidade de água triplicou devido ao aumento da população e ao turismo de massas.
Soluções de emergência e dessalinização
Para tentar estancar a crise, o governo está a instalar unidades móveis de dessalinização em tempo recorde, algumas a funcionar 24 horas por dia. O plano passa por ter 14 centrais operacionais até 2026, além de apostar na reutilização de águas residuais e na reparação de fugas nas redes de abastecimento.
No entanto, as críticas políticas avolumam-se. Especialistas e deputados acusam os governos sucessivos de ignorarem os avisos científicos feitos há duas décadas, que previam que Nicósia teria temperaturas semelhantes às do Cairo num futuro próximo.
Um futuro de desertificação
Os agricultores são os primeiros a pagar a fatura, com cortes de 30 por cento na irrigação que estão a gerar desespero e depressão no setor. O cenário futuro traçado pelos cientistas é catastrófico se nada for feito para reverter o aquecimento global na região do Mediterrâneo.
Explica ainda a Executive Digest que, no pior cenário, a temperatura média poderá subir 4,5 graus até ao final do século. As consequências seriam o colapso da agricultura, a deslocação em massa de populações e a impossibilidade de garantir segurança alimentar na ilha.