
Num dia a meio gás, com apenas uma ação de campanha e uma entrevista num programa de daytime, André Ventura, que há menos de 24 horas não perdoou com críticas do adversário António José Seguro, voltou a mudar o chip para se centrar em variadíssimas acusações ao Governo. Marcelo Rebelo de Sousa foi poupado também não foi poupado, depois de ter realizado uma visita ao Vaticano.
Mas já lá vamos. Para já, a campanha segue em modos mais contidos — e hoje nem sequer houve dezenas de apoiantes a entrar pela visita só para conseguir uma foto ou um aperto de mão de Ventura. Era um momento mais solene, desde logo porque a empresa de produção agrícola Hortomaria foi uma das afetadas pela tempestade Kristin. Ainda assim, Ventura já ouviu testemunhos com menos esperança. O dono da empresa e também presidente da organização de produtores Carmo e Silvério, Paulo Maria, espera resolver o problema das estufas em dois meses e voltar a trabalhar em força. Até porque o seguro vai pagar-lhe 90% dos prejuízos com as estruturas. O mesmo não acontece com a exploração perdida, mas o espírito é positivo e faz questão de o transmitir.
Ainda que não desvalorize os prejuízos, já que nem sequer é a primeira vez que sofre danos com uma tempestade, Paulo Maria tem outro problema mais grave para apresentar a Ventura: precisa de imigrantes, muitos. “Eu só queria aqui salientar, falar um pouco do tema, que é muito atual consigo. O tema da mão de obra. Nós dependemos da mão de obra estrangeira. 100%. Temos 80 colaboradores. Só temos um português que é o técnico”, descreveu o responsável.
Para Ventura, isso acontece porque “os portugueses não querem trabalhar nisto [agricultura] e também porque há subsídios para toda a gente“. Paulo Maria tem outra visão, considera que “não é só na agricultura” e argumenta que na restauração e proteção civil há o “mesmo problema” e deixa um alerta a quem já nesta campanha culpou os baixos salários pela emigração e necessidade de imigração: “Nós dependemos da mão de obra. Se hoje os trabalhadores estrangeiros fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente.”
Ventura volta a esquecer Seguro e ataca Montenegro e Marcelo
Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador
O dono da empresa está mais focado na importância de “o Estado permitir legalizar“, garante só ter trabalhadores regularizados e queixa-se de que “os primeiros anos quando os trabalhadores vinham para Portugal [queriam] dar contrato, mas o Estado nem permitia a legalização”. “Era muito obscuro. O que acontecia é que as pessoas trabalhavam ilegais”, referiu.
Enquanto isso, Paulo Maria fez questão de dizer que concorda com Ventura quando diz que os imigrantes podem vir “desde que haja trabalho”, dando a deixa perfeita a André Ventura para uma das propostas do Chega, quando disse que o partido defende “um sistema por quotas“, explicando que “definem quanto é que se precisa para agricultura, restauração, hotelaria e só essa quota é que entra”. Paulo Maria até parece concordar com essa parte, mas quis reiterar que “é muito importante salientar que este setor depende de mão de obra estrangeira — isso é ponto assente”.